O verão europeu: entre a alegria da estação e os desafios das alterações climáticas
O verão continua a ocupar um lugar especial no nosso imaginário. É a estação das férias, dos dias longos e ensolarados, dos encontros e das viagens.
As redes sociais reforçam frequentemente esta imagem, criando quase um imperativo de felicidade: parece que todos devemos aproveitar cada momento, viajar, estar ao ar livre e mostrar que estamos a viver o melhor verão possível.
Mas a experiência humana é muito mais diversa. Nem todas as pessoas gostam do calor, nem todas vivem esta estação como um período de descanso ou bem-estar. Para algumas, inclusive, o verão traz cansaço, desconforto, insônia ou maior vulnerabilidade emocional. Para outras, coincide com trabalho intenso, solidão ou saudade.
E, nos últimos anos, a este cenário juntou-se uma nova realidade. Ondas de calor, incêndios e temperaturas extremas passaram também a fazer parte do verão na Europa.
A alegria do verão continua a existir. Mas hoje, convive com novos desafios.
E quando falamos em saúde, é importante lembrar que falamos sempre de corpo e mente.
Quando pensamos nos efeitos do calor, lembramo-nos da desidratação, das queimaduras solares ou do agravamento de doenças físicas. No entanto, sabemos hoje que as temperaturas extremas também podem afetar o sono, aumentar a irritabilidade, a fadiga e até dificultar a concentração.
Por isso, a psicologia tem dedicado cada vez mais atenção aos impactos emocionais das alterações climáticas.
Conceitos como a ecoansiedade, por exemplo, procuram compreender a preocupação persistente com o futuro e com as transformações ambientais que já fazem parte da nossa realidade. Essa preocupação tornou-se tão concreta que, no ano de 2020, seis jovens portugueses recorreram ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos contra 32 países europeus, alegando que a insuficiente resposta às alterações climáticas colocava em risco direitos fundamentais, como o direito à vida, à saúde e ao futuro. Independentemente da decisão do tribunal, o caso chamou a atenção para uma realidade importante: para muitos jovens, a crise climática deixou de ser apenas um tema ambiental e passou a fazer parte da forma como imaginam o futuro.
É importante esclarecer que sentir preocupação não significa, por si só, adoecimento. Preocupar-nos perante uma ameaça real é uma resposta profundamente humana. O desafio surge quando essa preocupação nos impede de descansar, confiar ou viver plenamente o presente.
Esta reflexão também nos aproxima da experiência migratória.
Quando pensamos na adaptação a um novo país, falamos da língua, da cultura, dos costumes e da construção de novas relações. Mas raramente pensamos que também nos adaptamos ao clima.
Quem imigra aprende novos ritmos, novas estações e descobre que o verão europeu pode ser muito diferente daquele que imaginava. Adaptar-se passa também por reorganizar hábitos, expectativas e formas de viver o quotidiano.
Na psicologia intercultural compreendemos que o ser humano está sempre em diálogo com o ambiente que habita. Somos influenciados pelas relações que construímos, pela cultura que nos acolhe, pelas condições sociais em que vivemos e também pelo mundo natural que nos rodeia.
A adaptação não acontece apenas quando atravessamos fronteiras entre países. Ela também acontece quando o próprio mundo à nossa volta se transforma.
E como em qualquer processo de adaptação, o mais importante não é controlar tudo aquilo que muda, mas desenvolver recursos para responder a essas transformações com flexibilidade, presença e cuidado.
Porque a saúde mental também se fortalece quando reconhecemos que não somos separados do mundo, mas parte dele. E cuidar da forma como atravessamos os desafios – sejam eles pessoais, culturais ou ambientais – é também uma forma de construir pertencimento, esperança e humanidade.
Lívia Grizzi
Psicóloga Clínica Intercultural – OPP: 30056 | Conselheira da Associação UAI

