O sertão que cabe numa mala
Sobre a distância entre partir e pertencer
Por Viviane Oliveira António | 25 de agosto de 2026 | Braga, Portugal
A mala fecha, mas a casa inteira não cabe nela. Cabe uma panela pequena, um maço de fotografias, um casaco escolhido sem certeza do frio que vem. Fica de fora o som da rua onde se cresceu, a voz que dizia bom dia sem precisar dizer, a certeza de saber, sem pensar, onde fica cada coisa.
Dizemos que atravessamos oceanos. Na verdade, atravessamos um intervalo. De um lado, o que se deixou. Do outro, o que ainda não se aprendeu a chamar de seu. Nesse meio, mora um sertão que não é geografia nenhuma. É o estado de quem chegou e ainda não sabe onde pousar o corpo.
Portugal aparece primeiro como palavras que soam quase certas. O nome de uma rua que se lê de um jeito e se ouve de outro. Uma chave que gira, mas ainda não parece de casa. Uma janela que não reconhece quem a abre. É nesse estranhamento que a solidão se instala, discreta, sem drama, entre o horário do supermercado e a burocracia que não explica a própria letra miúda.
Depois vem a travessia, que é aprendizado disfarçado de rotina. Aprende-se o horário certo do ônibus, o sotaque que muda de rua para rua, o nome dos documentos, o jeito de pedir ajuda em uma língua que já não é estrangeira, mas também ainda não é a da infância. Sobreviver, aos poucos, vira reaprender.
Há uma canção que fala de uma terra rachada pelo sol, de um fogo que lembra festa e lembra falta ao mesmo tempo. Quem migra reconhece essa imagem sem precisar repeti-la. Existe uma seca que não é de chuva, é de referência, e existe também, atravessando o mesmo verso, a promessa de que depois da queimada alguma coisa volta a nascer.
João Guimarães Rosa escreveu um sertão que era travessia e linguagem antes de ser lugar. É esse sertão, movediço e sem mapa fixo, que melhor descreve quem atravessa um oceano para recomeçar.
Mas a vereda também chega. Um vizinho que ensina onde comprar o feijão certo. Uma comida feita de memória, temperada igual, ainda que o fogão seja outro. Uma criança que já mistura os dois lugares ao falar, sem perceber que está fazendo, todos os dias, a travessia mais difícil de todas.
Não é justo reduzir quem migra a símbolo de sofrimento contínuo. Há tristeza, sim. Há também desejo, humor, trabalho, vínculo novo e pequenas vitórias que não cabem em estatística. O sertão do imigrante não termina; ele ganha veredas quando se descobre possível pertencer a mais de um lugar, sem trair nenhum dos dois.
A mala chega primeiro. O corpo chega depois. A pertença, essa, atravessa devagar.

