Escotismo como casa de chegada

Escotismo como casa de chegada

O que o movimento escoteiro ensina a crianças brasileiras, e o que ele representa para a integração da comunidade em Portugal

Viviane Oliveira Antonio | 25 de agosto de 2026 | Braga

O Penha Centro Escutista, em Guimarães, recebeu entre 3 e 8 de agosto mais de cinco mil escoteiros vindos de cinco regiões do país. Era o ACAREG Braga 2026, o Acampamento Regional de Braga promovido pela Região de Braga do Corpo Nacional de Escutas, reunindo 158 agrupamentos sob o lema “dar comVida”. Barracas, cantos, fogueiras e um exercício coletivo de convivência tomaram conta da colina durante seis dias. Entre os milhares de jovens de lenço ao pescoço estavam também participantes estrangeiros, incluindo brasileiros que hoje moram em Portugal.

O que acontece num acampamento de cinco mil pessoas é a parte visível de um trabalho muito mais discreto. O Corpo Nacional de Escutas define-se como instituição de educação não formal, de utilidade pública, apartidária e sem fins lucrativos, e funciona sobretudo no ritmo semanal dos agrupamentos, não no brilho pontual de um grande acampamento. É nesse cotidiano que se ensina, na prática, aquilo que a pesquisa acadêmica portuguesa já identificou como o valor do escotismo enquanto experiência cívica.

Um estudo publicado na revista Sociologia, Problemas e Práticas, assinado por Rodrigues, Menezes e Ferreira, descreve o escotismo como um contexto que promove o envolvimento de crianças e jovens em atividades de serviço aos outros e às suas comunidades, funcionando como espaço de aprendizagem democrática. Não se trata apenas de acampar. Trata-se de aprender, na prática e antes da idade adulta, a diferença entre o que se pode fazer e o que se deve fazer, a responder por um compromisso assumido com um grupo, e a colocar o coletivo à frente do interesse individual.

Essa mesma investigação, conduzida com nove associações de imigrantes em Portugal através de entrevistas com coordenadores e jovens entre 15 e 24 anos, concluiu que esses espaços funcionam simultaneamente como contexto de socialização, lazer, participação, educação e expressão de pertencimento cultural. Uma dissertação da Universidade do Minho sobre associativismo migrante brasileiro em Portugal, que identificou e entrevistou associações brasileiras ativas no país, chegou a uma conclusão semelhante: essas estruturas contribuem diretamente para a integração política e social de quem chega.

O escotismo não é uma associação de imigrantes; é uma instituição portuguesa aberta a qualquer criança. Mas a pesquisa sobre associativismo migrante ajuda a explicar por que ele pode funcionar, para uma família brasileira recém-chegada, de forma parecida. Um agrupamento se reúne toda semana, cria vínculo entre pais, ensina o funcionamento prático da sociedade portuguesa pela convivência e não pela burocracia, e devolve a uma criança que acabou de mudar de país algo que a mudança quase sempre tira dela primeiro: um grupo de pertencimento que não depende da escola nem do endereço.

Portugal tinha, em 31 de dezembro de 2024, 1.543.697 cidadãos estrangeiros residentes, segundo o Relatório de Migrações e Asilo 2024 da AIMA, com a nacionalidade brasileira a representar 31,4% desse total, a maior fatia entre todas as comunidades estrangeiras no país. Para uma parcela dessas famílias, o escotismo pode ser exatamente esse tipo de porta, cívica antes de tudo, e integradora como consequência.

A Penha voltou ao silêncio depois do acampamento. As barracas foram desmontadas, os agrupamentos retornaram ao ritmo semanal de sempre. É nesse retorno ao comum, mais do que no momento de multidão, que o escotismo continua a fazer, todas as semanas, o trabalho que a pesquisa acadêmica já documentou: formar cidadania cedo e oferecer pertencimento a quem está construindo uma vida nova.

Fontes

• Corpo Nacional de Escutas, Região de Braga — ACAREG Braga 2026, cobertura institucional do evento

• AIMA, Relatório de Migrações e Asilo 2024

• Rodrigues, C., Menezes, I., Ferreira, P. D. — “Formas de participação de jovens com origem migrante em associações em Portugal”, Sociologia, Problemas e Práticas, OpenEdition Journals

• Moreira, Jilson Bruno Andrade — “Associativismo migrante em Portugal: análise ao seu contributo para a integração política dos imigrantes, o caso da comunidade brasileira”, dissertação de mestrado, Universidade do Minho, RepositóriUM

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