Com quadrilha, forró e copo sustentável, 8º ArraUAI reúne milhares em Braga e reafirma potência da cultura brasileira em Portugal
Edição deste ano superou expectativas e arrecadou fundos para projetos sociais da Associação UAI. Copo reutilizável de 2€ virou símbolo de sustentabilidade e solidariedade
Por Viviane Oliveira António | 24 de julho de 2026 | Braga, Portugal
O frio do inverno europeu já ficou para trás, mas o calor das tradições juninas demorou a esfriar em Braga. No último sábado, 4 de julho, o Parque da Ponte foi tomado por um pedaço do Brasil durante a 8ª edição do ArraUAI. O que começou há oito anos como um encontro modesto entre conterrâneos se consolidou como o maior evento da diáspora brasileira no Norte de Portugal, reunindo, segundo a organização, cerca de 10 mil pessoas ao longo de oito horas ininterruptas de festa.
Se os números recentes da imigração apontam para um êxodo de brasileiros de Portugal em direção à Espanha impulsionado por salários mais altos e pela burocracia portuguesa, o ArraUAI de 2026 provou que, para muitos, a comunidade e as raízes culturais seguem fincadas em solo português. O evento foi muito mais do que um arraial foi um ato de resistência cultural, um reencontro de afetos e uma demonstração prática de como a organização comunitária pode transformar a saudade em ação concreta.
A festa foi organizada pela Associação UAI – União, Apoio e Integração, presidida pela mineira Alexandra Gomide. Por trás da música, das barracas de comida e das quadrilhas, a associação realizou um trabalho silencioso e fundamental ao longo de todo o ano, oferecendo orientação jurídica e apoio psicológico a centenas de imigrantes. A edição deste ano serviu não apenas para celebrar, mas também para financiar essas atividades.
“Muitas pessoas veem o ArraUAI como uma grande festa. E realmente é. Mas por trás dela existe uma instituição social que, diariamente, trabalha para apoiar a comunidade brasileira em Portugal.” — Organização da Associação UAI


Programação diversificada agitou o Parque da Ponte do fim de tarde à meia-noite
A programação do 8º ArraUAI cumpriu rigorosamente o cronograma divulgado, agradando públicos de todas as idades. Os portões abriram às 16h, com as barracas de gastronomia já formando longas filas — a tradicional fila do pastel, que em edições anteriores chegou a duas horas e meia, novamente exigiu que a organização montasse três pontos de venda simultâneos para atender à demanda.
| Horário | Atração realizada |
| 16h | Abertura das barracas de gastronomia |
| 16h30 | Animação de palco infantil |
| 17h40 | Quadrilha Infantil |
| 18h | Tathy Bichara — Sertanejo |
| 19h15 | Grupo de percussão Artystika (desfile pela alimentação) |
| 19h30 | Momento Institucional |
| 19h40 | Casamento na Roça — Quadrilha adulta |
| 20h30 | Banda “Forró 80 Baixos” — Forró |
| 22h30 | Lea Monteiro — Brazuca Fest (Fusão de ritmos juninos) |
| 24h | Encerramento |
A presença das crianças foi um dos pontos altos. A quadrilha infantil, realizada às 17h40, emocionou os pais que viram os pequenos muitos deles nascidos em Portugal vestirem roupas xadrez e dançarem ao som de músicas juninas. O espaço infantil com animação de palco garantiu que a tradição atravessasse gerações, criando novas memórias afetivas para a chamada “geração diaspórica”.


O grupo de percussão Artystika fez um desfile especial pela zona de alimentação às 19h15, aquecendo o público para o momento institucional e para a apresentação principal da quadrilha adulta, que encenou o tradicional “Casamento na Roça” com muito humor e coreografia ensaiada. A noite foi encerrada com o forró da banda “Forró 80 Baixos” e a fusão de ritmos de Lea Monteiro, que fez o público dançar até a meia-noite.



Copo reutilizável de 2€ virou símbolo da edição e sustentou projetos sociais
Uma das marcas registradas da edição deste ano foi o copo reutilizável oficial do evento, vendido por 2€. A adesão do público superou as expectativas da organização. Mais do que uma lembrança física, o copo se tornou um símbolo do compromisso da comunidade com a sustentabilidade e com a solidariedade.
A compra era opcional, mas cada unidade adquirida representou um duplo impacto positivo:
- reduziu drasticamente o uso de copos descartáveis no parque;
- gerou receita direta para a manutenção dos projetos sociais da UAI.
A lógica era clara e foi amplamente compreendida pelo público: a renda obtida com a venda dos copos, canecas e bebidas na barraca da própria associação é a espinha dorsal que mantém vivos os atendimentos gratuitos oferecidos aos imigrantes. “Se puder, escolha fazer parte desta corrente de apoio. Um gesto simples que ajuda a manter vivo um trabalho que faz a diferença na vida de milhares de pessoas”, convidava a equipe da UAI antes do evento e o público respondeu positivamente.
Um encontro que transcende fronteiras
O sucesso do ArraUAI ultrapassou os limites geográficos de Braga. Como nas edições anteriores, o evento atraiu visitantes da vizinha Galiza, na Espanha, onde há uma expressiva comunidade brasileira. “Estamos a uma hora de Vigo, onde há uma comunidade brasileira enorme. E o que eles fazem? Como lá não tem esses eventos, eles vêm para Braga”, explicou Alexandra Gomide em entrevista anterior.
Quem já viveu o ArraUAI sabe que não é apenas uma festa. É um sentimento. E a edição de 2026, realizada em um contexto político europeu de endurecimento das leis migratórias e de avanço de discursos xenófobos, provou que a cultura brasileira não apenas sobrevive, mas floresce em terras portuguesas movida pela força da comunidade, pela música, pela comida e pela solidariedade que transformam a saudade em celebração.

