Quando o dinheiro de fora decide quem fica
Como o rendimento em moeda forte de quem chega de fora está a mudar bairros em Portugal
Viviane Oliveira Antonio | 25 de agosto de 2026 | Braga
Um aluguel de dois mil euros pode parecer generoso para quem acabou de sair de Londres. Para quem nasceu em Lisboa e ganha em euros portugueses, o mesmo valor é simplesmente inatingível. É essa distância de referência, e não apenas o preço em si, que está redesenhando bairros inteiros em Portugal.
Pesquisadores portugueses já documentaram esse mecanismo com nome próprio. Num artigo publicado em 2025 na revista Seara Nova, o geógrafo Luís Mendes, do ISCTE-IUL, descreve o processo de financeirização do imobiliário em Lisboa como resultado de uma virada neoliberal na política urbana que atraiu uma elite transnacional e transformou o mercado habitacional num ativo financeiro global. Estudos da Universidade de Lisboa e da NOVA FCSH classificam o fenômeno como gentrificação turística, em que a expansão do Alojamento Local desvia habitação do arrendamento de longa duração para o uso turístico, esvaziando bairros históricos de sua população original.
Portugal emitiu 4.279 vistos para nômades digitais entre novembro de 2022 e o levantamento mais recente obtido pelo Diário de Notícias, com norte-americanos, brasileiros e britânicos entre os maiores beneficiários. O bairro lisboeta de Arroios tornou-se símbolo dessa mudança. Um espaço de coworking na zona, o LACS Anjos, passou a ter 40 gabinetes, sendo o menor deles alugado por 1.250 euros mensais. Um café que custava 19 euros o litro quando os primeiros vistos de nômade digital começaram a ser emitidos passou a custar 23 euros cerca de um ano e meio depois, segundo relato recolhido pelo DN Brasil junto a comerciantes da zona.

Fonte: dados obtidos pelo Diário de Notícias, citados pelo DN Brasil em dezembro de 2024.
É importante situar esse fenômeno com precisão histórica. A via de investimento imobiliário do Golden Visa, que durante anos permitiu obter residência através da compra de imóveis, foi eliminada em outubro de 2023 pela Lei n.º 56/2023, no âmbito do pacote Mais Habitação. Quem hoje procura Portugal por residência ligada a rendimento passivo ou trabalho remoto passa sobretudo pelos vistos D7 e D8, não pela compra direta de imóveis para efeitos de visto. A pressão sobre os preços já não vem principalmente dessa porta específica, e sim da procura habitacional geral gerada por quem chega com rendimento em moeda forte, seja para alugar, seja para comprar fora do mecanismo de visto.
O outro motor da transformação está no aluguel de curta duração. Portugal tinha, em 2026, cerca de 111 mil registros ativos de Alojamento Local, um crescimento próximo de 4% em relação ao ano anterior, segundo levantamento do setor. Só em Lisboa, o novo Regulamento Municipal de Alojamento Local, em vigor desde dezembro de 2025, levou ao cancelamento de 6.765 registros por falta de seguro em fevereiro de 2026, e mantém em contenção absoluta freguesias como Santa Maria Maior, Misericórdia e Santo Antônio, onde a proporção entre alojamento turístico e habitação permanente já ultrapassa os limites definidos pela autarquia.
O padrão não é exclusivamente português. No Rio de Janeiro, a plataforma independente Inside Airbnb registrava, no fim de junho de 2026, 48.713 anúncios ativos de hospedagem na cidade — quase um terço deles concentrados apenas em Copacabana. Um levantamento anterior do Secovi-Rio, de março de 2025, já apontava 25 mil imóveis ativos na modalidade, um crescimento de 18% num único ano. O mecanismo que expulsa moradores de um bairro em Lisboa é, em escala diferente, o mesmo que reorganiza bairros inteiros no Rio.

Fontes: Alojamento Local em Portugal, levantamento setorial de 2026; Rio de Janeiro, Inside Airbnb, junho de 2026.
O efeito não se limita à habitação. O comércio de proximidade também muda de perfil quando o poder de compra do bairro muda: padarias tradicionais dão lugar a espaços de brunch, mercearias viram empórios, e o preço de tudo à volta sobe para acompanhar quem consegue pagar mais.
A comunidade brasileira em Portugal, a maior comunidade estrangeira do país segundo a AIMA, está dentro desse processo por dois lados que não se equivalem. Por um lado, faz parte da procura internacional que os vistos de nômade digital atraem, com brasileiros entre os principais beneficiários desse regime. Por outro, é também a nacionalidade mais citada nos relatos de discriminação recolhidos pela Casa do Brasil de Lisboa, entre imigrantes que tentam alugar casa nos mesmos bairros que ficam cada vez mais caros. O mesmo sotaque que abre uma vaga de coworking a um nômade digital pode fechar uma porta a um inquilino brasileiro que procura arrendamento de longa duração pelo telefone.
Fontes
• Mendes, Luís (2025) — “Os impactos da gentrificação e turistificação nos bairros do centro histórico de Lisboa”, Revista Seara Nova, edição de primavera, n.º 1770
• Repositório da Universidade de Lisboa e da NOVA FCSH — estudos sobre gentrificação turística e financeirização da habitação em Lisboa
• Diário de Notícias / DN Brasil, dezembro de 2024, dados sobre vistos de nómada digital e o bairro de Arroios
• Lei n.º 56/2023, pacote Mais Habitação, eliminação da via imobiliária do Golden Visa
• Regulamento Municipal do Alojamento Local de Lisboa, Aviso n.º 29926-A/2025/2, e atualização de abril de 2026
• Levantamento setorial de Alojamento Local em Portugal, 2026
• Inside Airbnb, dados do Rio de Janeiro, junho de 2026
• Secovi-Rio, levantamento de março de 2025
• AIMA, Relatório de Migrações e Asilo 2024
• Casa do Brasil de Lisboa, inquérito Imigração e a discriminação na habitação, janeiro de 2024

