A chave que não chega
Por que morar em Portugal ficou mais caro para todos, e mais caro ainda para quem chega de fora
Viviane Oliveira Antonio | 25 de agosto de 2026 | Braga
No primeiro trimestre de 2026, a renda mediana dos novos contratos de arrendamento em Portugal atingiu 9,46 euros por metro quadrado um crescimento de 9,1% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo as Estatísticas de Rendas da Habitação ao Nível Local do INE, publicadas em 26 de junho de 2026. O aumento não é um caso isolado de Lisboa. Em Braga, o preço mediano de venda por metro quadrado subiu 21,9% num ano; em Guimarães, 17,8%; em Vila Nova de Famalicão, 22,1%, segundo os dados de preços da habitação do próprio instituto referentes ao quarto trimestre de 2025.
O problema, antes de ser um problema de imigração, é um problema de descompasso. Uma análise do jornal Público, com base em dados do idealista referentes ao quarto trimestre de 2025, mostrou que em algumas das regiões mais pressionadas do país as famílias chegam a comprometer 80% do rendimento com o aluguel e 70% com a compra de casa. A recomendação técnica de especialistas e instituições financeiras é que essa taxa de esforço não ultrapasse 33% do rendimento.

Fontes: Público/idealista, dados do 4.º trimestre de 2025; recomendação técnica padrão de 33% citada na mesma análise.
É sobre essa base já desequilibrada que a comunidade imigrante, e em particular a comunidade brasileira, tenta entrar. Portugal tinha, em 31 de dezembro de 2024, 1.543.697 cidadãos estrangeiros residentes, segundo o Relatório de Migrações e Asilo 2024 da AIMA, com a nacionalidade brasileira representando 31,4% desse total a maior fatia entre todas as comunidades estrangeiras no país.
Um inquérito conduzido pela associação Casa do Brasil de Lisboa, divulgado em janeiro de 2024 sob o título “Imigração e a discriminação na habitação”, recolheu 230 respostas de imigrantes residentes em Portugal. Mais de 90% relatou algum tipo de discriminação no acesso à habitação. A situação mais comum, presente em 45% dos casos, ocorreu no momento do aluguel, com recusas diretas de senhorios a alugar para brasileiros, mudanças súbitas nas condições do contrato assim que o sotaque brasileiro era identificado ao telefone, e pedidos de garantias muito acima do limite legal de três rendas antecipadas

Fonte: inquérito Imigração e a discriminação na habitação, Casa do Brasil de Lisboa, janeiro de 2024, 230 respostas.
A coordenadora do estudo, Ana Paula Costa, afirmou ao Diário de Notícias que o índice elevado já era esperado, por confirmar uma tendência recorrente nos relatórios sobre discriminação no país, sempre acima dos 90%. O professor Luís Mendes, pesquisador na área da habitação, foi mais longe ao lembrar que o direito à moradia ultrapassa o simples acesso a um teto e envolve segurança e estabilidade, e que sem uma política pública de habitação a população migrante dificilmente se integra por completo.
Quase 95% das pessoas que passaram por situações de discriminação, segundo o mesmo inquérito, não denunciaram o caso a nenhuma autoridade, por medo, falta de confiança nas instituições ou dificuldade de reunir provas. Em 2022, apenas uma em cada cinco queixas apresentadas à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial resultou em processo de contraordenação. O resultado, segundo o próprio relatório da Casa do Brasil, se desdobra em habitações superlotadas, aumento da população em situação de rua e agravamento da pobreza entre a população migrante.
A alta geral de preços castiga o país inteiro. A dificuldade de entrar no mercado do lado errado do telefone castiga, além disso, quem já parte de uma renda mais alta do que a maioria dos portugueses consegue pagar.
Fontes
• INE, Estatísticas de Rendas da Habitação ao Nível Local, 1.º trimestre de 2026, publicado a 26 de junho de 2026
• INE, Estatísticas de Preços da Habitação ao Nível Local, 4.º trimestre de 2025
• Público / idealista, análise da taxa de esforço habitacional, dados do 4.º trimestre de 2025
• AIMA, Relatório de Migrações e Asilo 2024
• Casa do Brasil de Lisboa, inquérito Imigração e a discriminação na habitação, janeiro de 2024
• Diário de Notícias, reportagem sobre o inquérito da Casa do Brasil, com declarações de Ana Paula Costa e do professor Luís Mendes
• Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, dados de 2022 sobre processos de contraordenação

