Portugal ficou mais caro. Entenda por quê e como isso chega ao bolso dos brasileiros

Portugal ficou mais caro. Entenda por quê e como isso chega ao bolso dos brasileiros

Duas guerras simultâneas, dois estreitos sob ameaça e um mercado de habitação já pressionado explicam a alta do custo de vida em 2026. Para a maior comunidade estrangeira do país, a conta chega em dobro na despesa de cá e no dinheiro que deixa de ir para lá.

Por Viviane Oliveira Antônio | 25 de setembro de 2026 | Braga, Portugal

Quem abasteceu o carro em Portugal no dia 14 de setembro pagou, em média, 2,152 euros por litro de gasóleo o diesel, como se diz no Brasil. Foi o valor mais alto já registrado pela Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG). No início de março, antes de a alta chegar às bombas, o mesmo litro custava 1,635 euro. São 52 cêntimos a mais em pouco mais de seis meses, uma alta de 31,6%. A gasolina 95 subiu 21,5% no mesmo período.

O número não é um detalhe de quem tem carro. Afinal, o combustível está no caminhão que leva o arroz ao supermercado, no ônibus que atravessa a Margem Sul, no frete da encomenda e na conta de quem trabalha com entregas por aplicativo setor em que muitos brasileiros ganham a vida. Por isso, quando o petróleo sobe, a inflação costuma vir atrás. E foi exatamente o que aconteceu.

De onde vem a alta

Em janeiro de 2026, a inflação portuguesa estava em 1,9%, e os produtos energéticos estavam até mais baratos do que um ano antes (−2,2%). O cenário mudou a partir de 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã e Teerã respondeu com mísseis e drones contra alvos em todo o Golfo Pérsico. Em março, o Estreito de Ormuz passagem por onde circula entre 20% e 30% do petróleo consumido no mundo ficou praticamente fechado à navegação comercial.

O efeito apareceu imediatamente nas estatísticas oficiais. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), a energia passou de (-2,2%) em fevereiro para 5,8% em março e chegou a 13,1% em maio. A inflação geral acompanhou o movimento e subiu para 3,3% em abril, o nível mais alto em dois anos. De acordo com o próprio INE, a aceleração de março foi “quase totalmente explicada” pela subida dos combustíveis.

Houve um respiro. Em 17 de abril, uma trégua permitiu a reabertura de Ormuz, e o barril do tipo Brent caiu mais de 10% em um único dia. Em junho, a energia desacelerou para 9,1%. No entanto, o alívio durou pouco o acordo provisório de junho fracassou, o tráfego no estreito voltou a ser reduzido e, em setembro, novos ataques a navios levaram o Brent a superar os 105 dólares. Em agosto, a energia já subia 12,2% em termos homólogos, e a inflação voltou aos 3,3%.

A outra guerra e o outro estreito

Além disso, o choque do Golfo se soma a pressões que já existiam. A guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em 2022, continua a redesenhar o mapa energético europeu e mantém sanções, rotas alternativas e custos mais altos de abastecimento. Paralelamente, no Mar Vermelho, os rebeldes houthis do Iêmen avançaram em setembro sobre a ilha de Perim para reforçar o controle do Estreito de Bab el-Mandeb, a porta de entrada do Canal de Suez.

Na prática, quando dois gargalos marítimos ficam sob ameaça ao mesmo tempo, o problema vai além do preço do barril. Navios desviam pelo Cabo da Boa Esperança, as viagens ficam mais longas, os seguros encarecem e o frete sobe. Parte dessa conta chega, mais cedo ou mais tarde, às prateleiras.

A casa o custo que não depende da guerra

Ainda assim, seria simplista atribuir todo o aperto às guerras. A habitação segue uma dinâmica própria e pesa mais do que qualquer outro item no orçamento de quem vive de aluguel. No primeiro trimestre de 2026, a renda mediana dos novos contratos de arrendamento em Portugal chegou a 9,46 euros por metro quadrado, 9,1% acima de um ano antes, segundo o INE. Na Grande Lisboa, o valor foi de 14,38 euros; no município de Lisboa, de 17,42 euros.

Traduzindo em euros por mês um apartamento T2 de 70 metros quadrados alugado na capital sai, pela mediana, por cerca de 1.219 euros. Na Grande Lisboa, por pouco mais de mil. Em ambos os casos, o valor supera o salário mínimo nacional de 2026, fixado em 920 euros brutos cerca de 818 euros líquidos.

Por que os brasileiros sentem mais

Segundo o Relatório de Migrações e Asilo divulgado pela Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) em 22 de setembro, Portugal tinha 493.622 brasileiros com residência legal no fim de 2025 31,1% dos 1,59 milhão de estrangeiros do país e a maior comunidade estrangeira pelo sexto ano seguido. Em seis anos, o número mais que triplicou.

Não por acaso, a população imigrante está concentrada justamente onde a vida é mais cara segundo a AIMA, o distrito de Lisboa sozinho reúne cerca de 40% de todos os estrangeiros residentes. Além disso, os imigrantes enfrentam, em média, uma situação mais frágil. Dados do Pordata referentes a 2024 mostram que 28,9% dos estrangeiros residentes estavam em risco de pobreza ou exclusão social, contra 19,2% entre os portugueses. O desemprego entre estrangeiros (11,5%) era mais do que o dobro do registrado entre nacionais (5%).

Mesmo com trabalho, quase três em cada dez imigrantes estão em risco de pobreza ou exclusão social em Portugal.

Há, ainda, um sinal eloquente do aperto. De acordo com o Banco de Portugal, os brasileiros que vivem no país enviaram 341,4 milhões de euros ao Brasil em 2025  6,8% menos do que em 2024, que já havia registrado queda em relação a 2023. Ou seja, a comunidade cresceu, mas o dinheiro mandado para a família diminuiu. A explicação mais provável é simples: sobra menos no fim do mês.

Como a comunidade está lidando

Diante desse cenário, as estratégias de adaptação se repetem nas conversas de quem vive aqui dividir a casa com outras famílias ou alugar apenas um quarto; trocar Lisboa por concelhos mais distantes da Margem Sul, do Oeste ou do interior; deixar o carro em casa e usar o passe mensal de transporte público; migrar para marcas próprias no supermercado; acumular um segundo emprego; e adiar planos, como a vinda de familiares ou a compra de um imóvel.

Por outro lado, a adaptação tem limites. Quando uma família corta alimentação de qualidade, lazer, cuidados de saúde ou formação para conseguir pagar a renda, o problema deixa de ser apenas de preços e passa a ser de bem-estar. Por isso, vale conhecer os apoios públicos ao arrendamento geridos pelo Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), como o programa Porta 65, e a tarifa social de energia que, em regra, também abrangem estrangeiros com residência legal, desde que cumpram os requisitos de rendimento. Associações da comunidade e os Centros Nacionais de Apoio à Integração de Migrantes (CNAIM) ajudam a verificar as condições de cada caso.

O que esperar

As instituições portuguesas já revisaram para cima a previsão de inflação de 2026, para cerca de 3%. O rumo dos próximos meses dependerá, em grande parte, do que acontecer em Ormuz e no Mar Vermelho. Em suma, a fotografia de 2026 é mais complexa do que a frase “Portugal ficou caro por causa das guerras”. Os conflitos aceleraram a energia e os transportes; a habitação, por sua vez, já vinha pressionando o orçamento muito antes do primeiro míssil. Para a comunidade brasileira, o desafio é a sobreposição de tudo isso e uma renda que, muitas vezes, precisa sustentar projetos em dois países.

Entenda os termos Inflação homóloga: variação dos preços em relação ao mesmo mês do ano anterior. Inflação de 3,3% em agosto significa que os preços estão, em média, 3,3% mais altos do que em agosto de 2025. Gasóleo: é o óleo diesel. Em Portugal, “combustíveis” costuma se referir a gasóleo e gasolina. Renda: em Portugal, é o valor do aluguel. “Arrendamento” é a locação. T2: apartamento com dois quartos, além de sala, cozinha e banheiro (“casa de banho”). Brent: petróleo de referência para a Europa, cotado em dólares por barril.

FONTES

[1] INE — Índice de Preços no Consumidor, destaques mensais de janeiro a agosto de 2026 (www.ine.pt), com base em idealista/news (11/fev, 31/mar e 10/set/2026), Notícias ao Minuto (fev/2026), ECO (29/mai e 10/jul/2026) e Folha Nacional (31/ago/2026).

[2] DGEG — Direção-Geral de Energia e Geologia, preços médios de combustíveis, via Razão Automóvel (16/set/2026): https://www.razaoautomovel.com/noticias/preco-combustiveis-semana-38-maximos-historicos-2026/

[3] INE — Estatísticas de Rendas da Habitação ao nível local, 1.º trimestre de 2026 (26/jun/2026), via Observador: https://observador.pt/2026/06/26/renda-mediana-de-novos-contratos-acelerou-no-1-o-trimestre-e-cresceu-91/

[4] AIMA — Relatório de Migrações e Asilo 2025 (22/set/2026), via Observador e DN Brasil: https://observador.pt/2026/09/22/brasileiros-sao-quase-um-terco-dos-158-milhoes-de-estrangeiros-em-portugal-crescimento-abranda-face-a-anos-anteriores-diz-aima/

[5] AIMA — Relatório de Migrações e Asilo 2023 e 2024; SEF — Relatórios de Imigração, Fronteiras e Asilo 2019–2022: https://aima.gov.pt/pt/a-aima/relatorios-de-migracoes-e-asilo

[6] Banco de Portugal — remessas de migrantes (BPstat), via ECO (23/fev/2026): https://eco.sapo.pt/2026/02/23/remessas-dos-emigrantes-subiram-214-em-2025/

[7] Pordata/FFMS — Retrato da população imigrante em Portugal (18/dez/2025), via ECO: https://eco.sapo.pt/2025/12/18/maioria-dos-imigrantes-tem-emprego-mas-quase-tres-em-cada-dez-sao-pobres/

[8] Governo de Portugal — Salário mínimo de 920 euros em 2026: https://portugal.gov.pt/gc25/comunicacao/noticias/governo-aumenta-salario-minimo-para-920-euros-em-2026

[9] Contexto geopolítico: Euronews (28/fev/2026), Renascença (17/abr/2026), ECO (4 e 11/ago/2026), CNN Brasil (14/set/2026): https://www.cnnbrasil.com.br/economia/money/mercado/precos-do-petroleo-14-de-setembro-de-2026/

[10] Jornal Económico — revisão das previsões de inflação para 2026: https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/instituicoes-reveem-em-alta-inflacao-em-portugal-em-2026-para-cerca-de-3/

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