Brasileiros deixam Portugal e fazem da Espanha novo destino europeu
Saldo migratório em território português caiu pela metade em 2025
Por Viviane Oliveira António | 24 de julho de 2026 | Braga, Portugal
O cenário da imigração brasileira na Europa mudou de direção. Dados do Banco de Portugal e do Instituto Nacional de Estatística da Espanha revelam que Portugal deixou de ser a porta de entrada preferencial dos imigrantes brasileiros no continente.
Segundo números publicados pelo Banco de Portugal em junho de 2026, o saldo migratório de estrangeiros em Portugal reduziu-se à metade entre 2024 e 2025. Enquanto em 2024 o país registrava uma entrada líquida de 13.200 novos residentes estrangeiros por mês, em 2025 esse número caiu para 6.200. O banco central explica que esse resultado “reflectiu a conjugação de menos entradas com mais saídas de estrangeiros”. As entradas, que chegaram a ultrapassar 20 mil por mês entre meados de 2022 e meados de 2024, estabilizaram-se ligeiramente acima de 10 mil ao longo de 2025, enquanto as saídas de estrangeiros do país acentuaram-se, situando-se perto de 5 mil por mês.
A mudança, segundo o Banco de Portugal, constitui “uma alteração significativa face aos desenvolvimentos observados nos últimos anos” e veio após um período de saldos migratórios mensais acima de 20 mil entre 2016 e 2023. A inflexão ocorreu a partir de meados de 2024, com a adoção de uma política de imigração mais restritiva pelo governo liderado por Luís Montenegro.
Do outro lado da fronteira, a Espanha absorveu grande parte desse fluxo. A comunidade brasileira em solo espanhol saltou de 156 mil pessoas em 2022 para 195 mil em 2025, um aumento de 25% em três anos. Apenas entre fevereiro e abril de 2026, o INE da Espanha estima que 6,3 mil brasileiros tenham se mudado para o território espanhol. Caso esse ritmo se mantenha ao longo de 12 meses, o fluxo pode ultrapassar 25 mil pessoas.
A Espanha tinha 7,3 milhões de estrangeiros no primeiro trimestre de 2026, segundo o INE, e sua população total chegou a 49,6 milhões de habitantes em 1º de abril de 2026. O crescimento populacional espanhol de 459.462 pessoas no último ano teve peso significativo da presença estrangeira.
A mudança reflete o cansaço com o custo de vida elevado em Lisboa e no Porto. As rendas de habitação consomem fatias desproporcionais dos rendimentos, o que empurra as famílias para a fronteira vizinha. Segundo dados do Eurostat, o salário mínimo português, atualmente na casa dos 920 euros, ocupa a 12ª posição no ranking do bloco e está 146 euros abaixo da média europeia. A esse quadro soma-se a alta no preço dos arrendamentos, que torna a combinação com os baixos salários insustentável.
A burocracia também pesa na decisão. A Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) acumulou reclamações e atrasos que impedem a regularização de milhares de trabalhadores. O fim da manifestação de interesse em junho de 2024 fechou o caminho mais comum para quem chegava como turista e pretendia ficar. Do outro lado da fronteira, o governo espanhol abriu um processo extraordinário de regularização em abril de 2026, que recebeu mais de 900 mil candidaturas quase o dobro das 500 mil estimadas inicialmente e pode beneficiar cerca de 1,2 milhão de imigrantes.
| Indicador Migratório (2025-2026) | Portugal | Espanha |
| Entradas líquidas mensais (2025) | 6.200 | — |
| Entradas brutas mensais (2025) | 10.000 | — |
| Comunidade Brasileira (total) | 500 mil | 195 mil (2025) |
| População estrangeira total | 1,59 milhão (14% da população) | 7,3 milhões |
| Saldo migratório | Queda de 50% (2024→2025) | Alta acelerada |
| Fonte: Banco de Portugal, INE Espanha, AIMA (2026) |

