Quem apaga a luz

Quem apaga a luz

Uma observação sobre o cansaço que ninguém nomeia

Por Viviane Oliveira António | Braga, 2026

As sete da manhã, o metro já está cheio. Ninguém se olha. Cada um carrega um fone, um silencio próprio, um destino que não divide com ninguém.

Tem uma coisa curiosa no cansaço coletivo das cidades: ele não tem nome. A gente chama de estresse, de correria, de vida moderna. Mas no fundo e outra coisa. E a sensação de que a cidade foi construída para funcionar, não para ser habitada. Que a gente e peca de uma engrenagem que gira o dia inteiro e não sabe exatamente para que.

O telemóvel vibra. Uma notificação. Depois outra. Uma tarefa que ficou para amanhã, um prazo que já passou, uma mensagem que pede resposta imediata. Ninguém pergunta se e bom momento. Nunca e bom momento, e e sempre urgente.

Na fila do serviço público, o número na tela demora a mudar. A pessoa na sua frente suspira. Você também suspira. E uma solidariedade muda e involuntária, a das pessoas que esperam juntas sem se conhecer. Ninguém fala. Todos entendem.

A cidade ensina a pressa como se fosse virtude. Andar rápido. Decidir rápido. Responder rápido. Quem para, perde. Quem hesita, fica para trás. Atras do que, exatamente? Ninguém tem certeza. Mas todo mundo corre.

Tem um jogo antigo entre crianças onde alguém sempre fica para apagar a luz antes de sair. E a última pessoa, a que fecha a porta, a que garante que tudo está em ordem. Aqui, na cidade adulta e acelerada, alguém também fica para apagar a luz. Fica até mais tarde, responde o último e-mail, arruma o que os outros deixaram. Ninguém quer ser essa pessoa. Mas alguém sempre e.

O metro chega na estação. As portas abrem. A multidão entra, sai, reorganiza. Ninguém pediu licença, ninguém agradeceu. E assim que funciona. E assim que se vive.

La fora, a cidade continua girando. Indiferente, eficiente, bonita de longe. As sete da manhã, cheia de gente que ainda não acordou de verdade, mas já está correndo.

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