É no chão, é na viola, vai no pé, os Guardiões da Catira chegam a Braga
Braga, setembro de 2026
No palco montado no Parque da Ponte, em Braga, um grupo chegado de Camapuã, cidade do interior do Mato Grosso do Sul, fez, no dia 12 de setembro, a primeira apresentação internacional de sua história. São os Guardiões da Catira, ligados à Associação dos Catireiros de Camapuã, que atravessaram o oceano para levar ao público da sétima edição do Dia do Brasil uma dança que se conta com viola, canto, palmas e a marcação do pé no chão.
“É no chão, é na viola”, resume Carlito, um dos fundadores do grupo, quando tenta explicar de onde nasce o ritmo da catira. “Vai no pé”, completa Girsel da Viola, seu companheiro de música há mais de três décadas, sobre a forma como a marcação das palmas se conecta ao sapateado. As duas frases resumem o que os próprios integrantes descrevem como a essência da dança, o encontro entre o som da viola, a voz, o bater das mãos e a batida do pé no chão.
O que é a Catira, para quem a dança
Girsel da Viola conta que a catira nasceu do encontro entre duas heranças, a indígena e a dos povos escravizados, numa região que, segundo ele, recebeu padres jesuítas ainda no final do século dezesseis, por volta de 1580, para catequizar índios da etnia caiapó na área onde hoje fica Camapuã. “A viola caipira dos padres fazia com que os índios se acalmassem, e foi assim que eles conseguiam implantar a catequese”, relata. Para ele, o dançado caipira de hoje é resultado direto desse encontro entre a dança dos escravizados e a dança indígena.
Primeiro momento, o grupo que deu origem a uma associação
A história dos Guardiões da Catira começa antes da própria associação que hoje leva esse trabalho adiante. Carlito já tinha um grupo de catira, formado com um conhecido seu, quando conheceu Girsel da Viola, então um rapaz de cerca de 25 anos que tocava viola ao lado de um amigo, Joilson, que também cantava com ele. Foi esse encontro que aproximou os dois, e que Girsel da Viola viria a completar anos depois com outra descoberta, a de que a ligação entre as duas famílias já vinha de muito antes. “Os meus bisavós eram catireiros, violeiros, vizinhos de propriedade rural dos pais dele. Era tudo ali numa região só”, contou Girsel da Viola, lembrando que, na geração seguinte, a do próprio pai, a família passou a tocar sanfona, até a viola voltar a aparecer nas mãos dele.
Carlito e Girsel da Viola se reencontraram por volta de 1994, já então dedicados à catira, e desde aquele momento mantiveram o grupo em atividade, tocando e se apresentando ao longo de três décadas. Foi esse grupo que, em 2009, deu origem à Associação dos Catireiros de Camapuã, fundada por Girsel da Viola e Carlito.
Foi durante a presidência de Girsel da Viola que a associação passou a levar aulas de catira a escolas municipais de Camapuã, Figueirão e Jaraguari, entre outros municípios da região. “Eu tentei fazer algo diferente. Não é só tocar. Eu tentei causar alguma coisa na sociedade”, conta Ariane. A iniciativa rendeu convites para gravações e programas de televisão no Brasil, e Girsel da Viola chegou a criar, para chamar mais atenção, um efeito visual em que pequenas chamas eram acesas por instantes junto às botas dos dançarinos durante o espetáculo. “A gente está escrevendo um livro, fazendo todo esse resgate cultural da catira”, diz Ariane.
A associação cresceu e conquistou a certificação de ponto de cultura pelo Ministério da Cultura do Brasil. Mais tarde, a presidência passou para Ariane, mulher de Girsel da Viola, que chegou à associação depois desse período inicial. Formada em educação física e com pós graduações voltadas à área cultural e educativa, Ariane usou essa formação para reorganizar a estrutura da associação e ampliar seus projetos, sendo hoje creditada, em reportagens publicadas no Brasil, como idealizadora do projeto Guardiões da Catira e presidente da Associação de Catireiros de Camapuã.
Segundo momento, os Guardiões da Catira
O nome do grupo que se apresentou em Braga expressa uma ideia coletiva. “É Guardiões, porque são várias pessoas guardando e transmitindo e valorizando essa cultura. Não é sozinha”, explica Girsel da Viola, que cita, além de Carlito, o trabalho de Jorge Carvalho, responsável pelo acompanhamento ao violão nas apresentações, e de outros integrantes da associação que ajudam a levar a catira às crianças da região. Girsel da Viola também é conhecido, fora do universo da catira, como: violeiro, cantor e compositor de música sertaneja raiz e ocupa o cargo de Diretor de Cultura e Turismo de Camapuã.
Ariane, à frente da produção cultural do grupo, é quem dá forma pedagógica a esse trabalho. “Eu acredito que a cultura tem que causar alguma emoção no ser humano. Tudo na profissão da gente vai se juntando, uma coisa e outra”, diz. Foi ela quem idealizou o Festival de Catira e Viola do Mato Grosso do Sul e segue à frente da iniciativa desde a primeira edição.
A catira, tradicionalmente dançada apenas por homens, passou nos últimos anos a contar também com grupos femininos, e um grupo infantil, formado por cerca de doze crianças entre oito e doze anos, nasceu do trabalho nas escolas. Ariane conta que as aulas ensinam também a vestimenta tradicional, calça jeans, bota com sola de couro, camisa, cinto e chapéu, como parte da preservação da cultura, e não apenas como figurino. “Quando a gente vê essas crianças nos palcos se apresentando artisticamente, a gente se sente com o dever cumprido e muito orgulhoso. É de encher os olhos de lágrimas ver os pais e os avós acompanhando”, diz.
A primeira viagem internacional
“Eu sonhava muito a gente conseguir atravessar o oceano”, lembra Ariane sobre o desejo antigo de levar a catira para fora do Brasil. O convite veio depois do contato com Alexandra Gomide, da UAI. “Quando eu contatei a Alexandra, ela se fez disponível, e falou que isso ia ser lindo, que ia colocar no Dia do Brasil. No dia que aprovou, foi de muita emoção para mim”, diz Ariane. A preparação envolveu ajustes documentais, o envio de conteúdos à organização e cerca de cinco a seis meses de ensaios diários dedicados especificamente à apresentação em Portugal.
“A gente sabe que, pela primeira vez, alguém conseguiu trazer a Catira um pouco mais além. Não só trazer a Catira, mas trazer o nosso Brasil”, conta Ariane. “É de um pertencimento muito grande essa área, muito grande mesmo. Às vezes é uma emoção muito forte para mim.” Segundo ela, o grupo teria cerca de quarenta minutos de apresentação em Braga, dentro de uma abertura maior dedicada ao Mato Grosso do Sul, uma dimensão que, em suas palavras, é muito além do que esperavam alcançar.
Já em Braga, os Guardiões da Catira transformaram a apresentação numa espécie de aula coletiva, ensinando passos ao público, que acompanhou a música, bateu palmas e arriscou o sapateado ao lado do grupo.




A viola que veio de Portugal e voltou
Um dos momentos mais marcantes da viagem foi a visita a uma oficina de viola em Braga. “Achei lindíssimo o som. Acho que a perfeição realmente veio de Portugal, foi bom demais”, diz Girsel da Viola, que aproveitou para comprar um instrumento no local visitado e experimentar, pela primeira vez, uma viola portuguesa com afinação própria, diferente das que costuma tocar no Brasil.
Para a apresentação em Braga, o grupo criou uma coreografia inédita, batizada de Portugal Novo, e incorporou um trecho do hino nacional brasileiro tocado na viola dentro do ritmo da catira, arranjo composto especialmente para esta viagem.
O que os integrantes levam de volta

Depois da apresentação em Braga, o grupo leva de volta a Camapuã o peso e o orgulho de ter alcançado, pela primeira vez, um público fora do Brasil. Para Girsel da Viola, mostrar a catira ao lado da história de Camapuã e do Mato Grosso do Sul dentro do Dia do Brasil é também mostrar uma parte pouco conhecida da diversidade cultural do país. Para Ariane, o trabalho de ensino nas escolas e a formação de novas gerações de dançarinos são a garantia de que a tradição segue viva, para além da geração atual do grupo.
Ao longo da passagem por Braga, o grupo também reforçou o cuidado com o espaço cedido pela organização, mantendo a limpeza e a conservação do Parque da Ponte durante os ensaios e a apresentação, um gesto que a associação faz questão de repetir em cada palco que ocupa.
Fontes
Entrevista gravada em áudio pela jornalista Viviane Oliveira para revista Olhar Brasileiro com integrantes do grupo Guardiões da Catira e da Associação dos Catireiros de Camapuã Mato Grosso do Sul -Brasil.

