Em sete edições, Dia do Brasil consolida uma ponte cultural

Em sete edições, Dia do Brasil consolida uma ponte cultural

Viviane Oliveira Antônio | 25 de setembro de 2026 | Braga

Debaixo de barracas coloridas, entre o cheiro de acarajé, tacacá e churrasco, o Parque da Ponte, em Braga, viveu neste ano a sétima edição do Dia do Brasil, festa gratuita e sem fins comerciais organizada pela Associação UAI desde 2019. Estima se que entre seis e oito mil pessoas tenham passado pelo parque ao longo do dia 12 de setembro, atraídas por uma programação que uniu gastronomia, artesanato, música e danças de diferentes estados brasileiros.

Sete anos depois da primeira edição, o evento se consolidou como uma vitrine da diversidade regional do Brasil, sustentada por barracas montadas por expositores que trazem, por conta própria, comida típica e artesanato de cada estado. Esta reportagem reconstrói a trajetória do Dia do Brasil desde a fundação da UAI até a sétima edição, e reúne, num só lugar, os estados que já passaram pelo evento ao longo de sete anos.

Da fundação da UAI ao primeiro Dia do Brasil

A Associação UAI nasceu em Braga em 17 de maio de 2018, com a missão de acolher, inserir e integrar famílias da comunidade luso-brasileira em Portugal. Ao longo dos anos, passou a oferecer orientação jurídica e apoio psicológico a imigrantes, além de organizar atividades culturais na cidade.

O primeiro Dia do Brasil aconteceu pouco mais de um ano depois, em 14 de setembro de 2019, no Parque da Ponte. A presidente da associação, Alexandra Gomide, afirmou que a estreia tinha sido um sucesso e prometeu uma segunda edição para o ano seguinte. O evento contou com apoio da Câmara Municipal de Braga e da União de Freguesias de Maximinos, Sé e Cividade, e reuniu brasileiros vindos não só de Braga, mas também do Porto, de Aveiro, de Leiria, de Viseu, de Lisboa e da Galiza.

Uma pausa forçada e uma retomada gradual

A pandemia de covid-19 não interrompeu por completo a tradição, mas obrigou a UAI a reinventar o formato por dois anos. Em 2020 e 2021, o Dia do Brasil aconteceu em versões reduzidas, uma nos jardins do Museu dos Biscainhos e outra no Museu do Traje, ambos em Braga, adaptadas às restrições sanitárias da época.

A retomada em moldes mais próximos das edições anteriores veio em 2022, com a terceira edição. A quarta ocorreu em 2 de setembro de 2023, novamente no Parque da Ponte, e a quinta em 14 de setembro de 2024, já então também identificado como Parque de São João da Ponte. A sexta edição, em 2025, deu sequência ao calendário, até chegar à sétima, este ano.

Barracas, comida típica e artesanato, um Brasil que se mostra por dentro

O Dia do Brasil não cobra entrada nem tem fins comerciais. Cada barraca é montada por seus expositores ligadas a um estado brasileiro, que trazem, por conta própria, pratos típicos e peças de artesanato da sua região. Foi assim que, ao longo das sete edições, o acarajé da Bahia, o tacacá do Amazonas, o chimarrão do Rio Grande do Sul e a feijoada do Rio de Janeiro dividiram espaço com o artesanato e os doces de Minas Gerais, Pernambuco, Maranhão e Santa Catarina, além da presença, já registrada em edições anteriores, de barracas do Pará, de Goiás e de São Paulo.

Algumas fotos tiradas no Dia do Brasil, e também de algumas barracas e dos seus expositores desta edição.

Mais do que uma vitrine gastronômica, a proposta da UAI é apresentar o Brasil pela cultura do interior de cada estado, a tradição, o artesanato, a dança e a música que raramente aparecem fora do país. O Dia do Brasil não é, segundo a organização, um evento sobre música brasileira, mas sobre o encontro de culturas regionais que, juntas, mostram ao público português uma face do Brasil que vai além do que costuma circular fora das fronteiras do país.

Sete edições depois, uma vitrine cada vez maior

Nesta sétima edição, o Dia do Brasil reuniu barracas de oito estados, Amazonas, Bahia, Maranhão, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, com pratos que iam do acarajé baiano ao chimarrão gaúcho, passando pelo tacacá amazônico e pela feijoada carioca.

O destaque da programação foi a apresentação dos Guardiões da Catira, grupo de Camapuã, no Mato Grosso do Sul, que trouxe ao Parque da Ponte uma homenagem ao Pantanal e uma manifestação com mais de 400 anos de história, a catira, também chamada de cateretê. A vinda do grupo foi viabilizada por um projeto aprovado no Edital de Intercâmbio Cultural, com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, vinculada ao Ministério da Cultura do Brasil, executado pela Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul.

A programação incluiu ainda cantigas de roda, workshop infantil de carimbó, roda de capoeira conduzida pelo professor Leo Senzala, a execução do hino nacional brasileiro pelo tenor Ricardo Tuttmann, um tributo à Legião Urbana pela banda LP7, um espetáculo de axé pela banda Óculos Escuros e uma sessão com o DJ JC Lima que se estendeu até a madrugada.

O Dia do Brasil em Braga integra hoje um calendário mais amplo de festas brasileiras em Portugal em torno do sete de setembro, data da independência do Brasil. A mais antiga delas é o Dia do Brasil no Porto, promovido pela associação Batucada Radical, que em 2026 chegou à décima sétima edição. Em Aveiro, o Estação Brasil realizou em 2026 apenas a sua segunda edição, depois de estrear em 2025. Braga, portanto, ocupa uma posição intermediária nessa cronologia, mais recente que o Porto e mais consolidada que Aveiro.

A organização também reforçou o cuidado com a limpeza e a conservação do Parque da Ponte, espaço cedido pela Câmara Municipal de Braga para a realização do evento. A UAI mantém parceria com a AGERE, empresa municipal de águas, saneamento e resíduos de Braga, que apoia a organização, a limpeza e a recolha de resíduos durante e depois da festa.

Vozes de quem viveu o dia

Ao longo da tarde e da noite de 12 de setembro, a equipe de comunicação da UAI colheu depoimentos de participantes que ajudam a entender o que o evento representa para quem vive em Portugal longe de casa.

Zélia, que veio de Natal e está em Portugal há quase dez anos, participava pela segunda vez do Dia do Brasil e aprovou a organização. Cíntia, da Bahia, mora em Portugal há sete anos e foi, pela primeira vez, à festa neste ano, depois de anos impedida pela rotina de trabalho. Ela destacou a presença de barracas baianas. Já Ivone, de São Paulo, chegou a Portugal há um ano e meio e resumiu a sensação de acolhimento.

“Acho que está muito bem organizado. Muito bem preparadinho. É tranquilo o ambiente”, disse Zélia.

“É bom ter duas barraquinhas da Bahia ali. Traz a casa pra perto”, contou Cíntia.

“É muito bom. A gente se sente mais à vontade, mais acolhedor. Mais próximo de casa”, resumiu Ivone.

Uma participante que preferiu não se identificar comparou os sabores do evento aos de casa, enquanto Gisele, de São Paulo capital, chegada recentemente a Portugal, descobriu a festa por acaso e se surpreendeu com o formato fechado do espaço.

“O ambiente é confortante. O nosso pastelzinho com caldo de cana. Lembra muito a nossa casa. Até o calor está parecido.”

“Achei que era um lugar aberto e fiquei preocupada. Quando eu vi que era interno, eu falei, ah, que legal, que gostoso. O clima é acolhedor de família”, disse Gisele.

Amilca, do Recife, está em Portugal há cinco anos e não perde uma edição. Isabel, de Minas Gerais, também há cinco anos no país, notou uma evolução na diversidade de expositores nesta edição, mas sentiu falta de mais aglomeração entre os brasileiros presentes. Karina, do Amazonas, em Portugal há oito anos, acompanhou o crescimento do evento ao longo do tempo.

“Ambiente de família. Comida gostosa. Tem um pouquinho da nossa terra próximo”, resumiu Amilca.

“Eu sinto muito a falta do brasileiro um grudado no outro. Um conversando com o outro. Muita gente junto”, disse Isabel.

“Esse ano veio mais expositores, mais artistas. Diversificou mais os artistas também. Tem dois palcos. Está muito fixe”, avaliou Karina.

Uma das entrevistadas, que autorizou a publicação do depoimento por escrito, associou a festa a um sentimento de orgulho.

“É um orgulho para nós, trazer nossa tradição, e eles conheçam as coisas boas que nós temos no Brasil. Divulgar é sempre muito importante.”

Um público estimado entre seis e oito mil pessoas

Segundo estimativas apuradas para esta reportagem, entre seis e oito mil pessoas passaram pelo Parque da Ponte ao longo do dia 12 de setembro, nesta sétima edição. Para efeito de comparação, o Dia do Brasil no Porto, evento mais antigo e de maior porte, tem sido descrito pela imprensa como um encontro de milhares de pessoas.

O que os mapas e os números mostram

O mapa a seguir reúne os estados brasileiros que já passaram pelo Dia do Brasil em Braga, da primeira à sétima edição, com barracas de comida típica ou artesanato. Ele não representa fronteiras oficiais, mas a posição aproximada das capitais estaduais, e serve para visualizar a extensão geográfica que o evento já alcançou dentro do Brasil ao longo de sete anos.

Elaborado a partir de informações divulgadas pela Associação UAI e de relatos colhidos junto à organização sobre os estados presentes nas sete edições do Dia do Brasil.

Já a linha do tempo reúne as edições do Dia do Brasil desde a fundação da UAI, em 2018, até a sétima edição, em 2026, incluindo as duas edições em formato reduzido realizadas durante a pandemia.

Elaborado com base em registros da organização e da imprensa local sobre as sete edições do Dia do Brasil em Braga.

O que fica depois de sete anos

Para a organização e para parte do público ouvido nesta reportagem, o Dia do Brasil em Braga é descrito como mais do que uma festa. É apresentado, nas palavras da presidente da UAI, Alexandra Gomide, como uma tentativa de mostrar um Brasil além dos estereótipos, numa referência recorrente ao fato de o país ser frequentemente resumido, fora de suas fronteiras, a samba, carnaval e futebol.

Ao longo de sete edições, o evento reuniu manifestações de diferentes regiões do Brasil, da catira do Centro Oeste ao carimbó do Norte, do axé da Bahia ao chimarrão do Sul, ao lado de instituições portuguesas como a Câmara Municipal de Braga e a União de Freguesias de Maximinos, Sé e Cividade, presentes em edições anteriores. Para os organizadores, essa combinação sustenta a proposta declarada do evento, apresentar a diversidade cultural, gastronômica e social do Brasil à sociedade portuguesa, ao mesmo tempo em que oferece à comunidade brasileira um espaço de reencontro com o país de origem.

A Associação UAI já anunciou a data da próxima edição, marcada para setembro de 2027, também em Braga.

Fontes

Braga TV, “Brasileiros unidos em Braga celebram o Dia do Brasil”, 15 de setembro de 2019.

O Vila Verdense, “Parque da Ponte acolheu comemoração do Dia do Brasil”, 15 de setembro de 2024.

Blogue do Minho, “Braga comemorou Dia do Brasil”, referente à quinta edição, setembro de 2024.

O Minho, “Quarta edição do Dia do Brasil em Braga já tem data”, 27 de julho de 2023.

Diário do Minho, “IV Dia do Brasil em Braga ajudou a matar saudades e a promover a integração”, 3 de setembro de 2023.

DN Brasil, “Ainda tem festa, Dia do Brasil em Braga ocorre neste sábado”, 13 de setembro de 2024.

Associação UAI, página “Festas”, uai.pt/festas.

Associação UAI, página “Na Imprensa”, uai.pt/imprensa.

Braga TV, “Braga, Parque da Ponte recebe 7ª edição do Dia do Brasil”, agosto de 2026.

DN Brasil, “Dia do Brasil em Braga já tem sete estados confirmados”, setembro de 2026.

DN Brasil, “Comunidade brasileira celebra independência com festas pelo país”, setembro de 2026.

DN Brasil, “Dia do Brasil no Porto reúne milhares de pessoas”, sem data precisa identificada.

Depoimentos, estimativa de público e dados de programação apurados diretamente junto à organização e ao público da sétima edição, 12 de setembro de 2026.

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