Conectados o tempo todo, sozinhos ao mesmo tempo

Conectados o tempo todo, sozinhos ao mesmo tempo

Nunca estivemos tão disponíveis uns para os outros e nunca se falou tanto em solidão. Os dados da OMS, do Eurostat e do INE mostram que o paradoxo da vida hiperconectada não é só uma impressão tem idade, tem renda e tem endereço.

Por Viviane Oliveira Antônio | 25 de setembro de 2026 | Braga, Portugal

A cena é conhecida. O celular vibra no bolso, o grupo da família manda bom-dia, o trabalho cobra resposta no aplicativo, a rede social avisa que alguém reagiu à foto. Ao fim do dia, dezenas de mensagens trocadas. Ainda assim, no momento em que seria preciso desabafar sobre um medo, um luto ou uma decisão difícil, muita gente descobre que não tem com quem conversar.

Não se trata de uma sensação isolada. Em junho de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou o relatório da sua Comissão sobre Conexão Social e chegou a uma conclusão incômoda: uma em cada seis pessoas no mundo se sente só. Segundo a entidade, a solidão está associada a cerca de 871 mil mortes por ano aproximadamente 100 por hora. “Nesta era em que as possibilidades de conexão são infinitas, cada vez mais pessoas se sentem isoladas”, resumiu o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

A vida no modo “sempre on-line”

Do outro lado da balança, a conexão digital virou regra. De acordo com o Eurostat, 88% das pessoas entre 16 e 74 anos na União Europeia usavam a internet todos os dias ou quase todos os dias em 2024. Dez anos antes, eram 63%. Entre os jovens de 16 a 29 anos, o uso diário chegou a 97%. Além disso, 89,3% dos jovens europeus usaram redes sociais em 2025.

Portugal acompanha a tendência. Segundo o Inquérito à Utilização de Tecnologias da Informação e da Comunicação nas Famílias, divulgado pelo INE em novembro de 2025, quase 90% da população entre 16 e 74 anos usa a internet. O acesso, portanto, deixou de ser o problema. A questão agora é outra: o que essa presença permanente faz com as nossas relações.

Quem se sente só

Os números da OMS desmontam a ideia de que a solidão seja um problema exclusivo dos idosos. Pelo contrário, entre os jovens de 13 a 29 anos, entre 17% e 21% relatam sentir-se sós e as taxas mais altas aparecem na adolescência. A renda também pesa: nos países de baixa renda, 24% das pessoas se dizem solitárias, o dobro dos 11% registrados nos países ricos.

Na União Europeia, o primeiro grande inquérito sobre o tema, conduzido pela Comissão Europeia em 2022 com mais de 25 mil pessoas, apontou que 13% dos entrevistados se sentiam sós a maior parte do tempo ou o tempo todo. É importante, porém, ler esse dado com cautela a amostra foi recrutada em painéis on-line e não é probabilística, ou seja, não funciona como um retrato exato de toda a população.

“À medida que a tecnologia remodela nossas vidas, precisamos garantir que ela fortaleça e não enfraqueça a conexão humana.” Chido Mpemba, copresidente da Comissão da OMS

O que acontece com os adolescentes

É justamente entre os mais jovens que o paradoxo aparece com mais nitidez. O estudo HBSC, coordenado pela OMS na Europa e realizado com cerca de 280 mil adolescentes de 11, 13 e 15 anos em 44 países, mostrou que o uso problemático das redes sociais com sinais semelhantes aos da dependência, como não conseguir controlar o tempo de uso ou sofrer quando se está desconectado saltou de 7% em 2018 para 11% em 2022. Entre as meninas, a proporção chegou a 13%; entre os meninos, a 9%.

Ao mesmo tempo, 36% dos adolescentes disseram manter contato on-line quase constante com os amigos. Entre as meninas de 15 anos, a proporção sobe para 44%. Em outras palavras, a turma está sempre ali, na tela. Mesmo assim, o relatório da OMS pede vigilância sobre os efeitos do excesso de tela e das interações negativas na saúde mental dos jovens.

Portugal: mais gente morando sozinha

Se a solidão é uma experiência subjetiva, morar sozinho é um dado concreto e um dos fatores de risco citados pela OMS. Nesse ponto, Portugal mudou rapidamente. Segundo os Censos 2021 do INE, os lares com uma única pessoa passaram de 21,4% do total em 2011 para 24,8% em 2021 já são mais de 1 milhão. Ou seja, praticamente um em cada quatro lares portugueses tem um só morador.

O retrato também tem rosto. De acordo com o INE, 60,1% de quem mora sozinho tem 65 anos ou mais, e a maioria é formada por mulheres. Entre as pessoas com 80 anos ou mais, 37,8% vivem sem nenhum núcleo familiar em casa, com maior concentração no interior do Norte e do Centro e na Madeira.

Acelerados, conectados e distantes

Não é correto, contudo, concluir que a tecnologia produz solidão de forma automática. A mesma tela que isola também aproxima é por videochamada que o avô em Minas Gerais vê o neto crescer em Braga, e é pelo grupo de mensagens que o recém-chegado encontra trabalho, casa e amigos. Para quem migrou  como centenas de milhares de brasileiros em Portugal, a conexão digital é muitas vezes o fio que mantém a família por perto.

O problema começa quando a conexão substitui o encontro, em vez de complementá-lo. Jornadas longas, deslocamentos demorados, aluguéis que empurram as pessoas para longe dos amigos, a pressão por estar sempre disponível e a comparação constante com vidas editadas nas redes reduzem o tempo e a energia para os vínculos presenciais. Nesse sentido, o paradoxo é tanto tecnológico quanto social vivemos mais rápido, falamos com mais gente e, ainda assim, temos menos tempo para estar de fato com alguém.

O que pode ser feito

Para a OMS, a solidão deve ser tratada como questão de saúde pública, e não como falha individual. A Comissão recomenda políticas nacionais de conexão social, mais pesquisa, espaços públicos que favoreçam o convívio e atenção redobrada aos grupos mais vulneráveis, como jovens, idosos e migrantes.

No dia a dia, algumas atitudes simples ajudam transformar parte das mensagens em encontros; reservar momentos sem telas nas refeições; participar de associações, grupos culturais, esportivos ou religiosos; e, sobretudo, perguntar a quem está perto como vai de verdade. Afinal, estar on-line e estar acompanhado podem acontecer ao mesmo tempo, mas não são sinônimos. Reconhecer essa diferença é o primeiro passo para que a tecnologia volte a ser uma ponte e não um substituto para as relações que exigem tempo, presença e cuidado.

Onde buscar apoio em Portugal SNS 24 (808 24 24 24): aconselhamento em saúde, incluindo apoio psicológico, 24 horas por dia. Linha de Apoio ao Migrante (808 257 257): informação e encaminhamento para imigrantes. Associações da comunidade brasileira e grupos locais de convívio: uma porta de entrada para novas redes de amizade e apoio.

FONTES

[1] OMS — Comissão sobre Conexão Social, relatório “From loneliness to social connection” (30/jun/2025), via OPAS/OMS: https://www.paho.org/pt/noticias/30-6-2025-conexao-social-e-associada-melhoria-da-saude-e-reducao-do-risco-morte-prematura e ONU News: https://news.un.org/pt/story/2025/07/1850156

[2] Eurostat — “97% of young people in the EU use the internet daily” (15/jul/2025): https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/w/edn-20250715-1

[3] Eurostat — “89% of 16-29-year-olds used socials in 2025” (9/abr/2026): https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/w/ddn-20260409-1

[4] INE — Inquérito à Utilização de TIC pelas Famílias 2025 (21/nov/2025), via Público: https://www.publico.pt/2025/11/21/economia/noticia/quase-90-portugueses-16-74-anos-usa-internet-apenas-387-ia-2155513

[5] Comissão Europeia/JRC — EU Loneliness Survey 2022: https://joint-research-centre.ec.europa.eu/scientific-activities/survey-methods-and-analysis-centre/loneliness/loneliness-prevalence-eu_en

[6] OMS/Europa — “Teens, screens and mental health”, estudo HBSC (25/set/2024): https://www.who.int/europe/news/item/25-09-2024-teens–screens-and-mental-health

[7] INE — Censos 2021, resultados definitivos, via idealista/news: https://www.idealista.pt/news/financas/economia/2023/01/24/56449-como-sao-as-familias-em-portugal-1-em-cada-4-e-so-de-uma-pessoa

[8] INE — “Famílias nas fases mais avançadas da vida: tendências atuais” (set/2024), via Observador: https://observador.pt/2024/09/18/quase-40-dos-idosos-com-mais-de-80-anos-viviam-sozinhos-em-2021/

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