Big Resiliência: Uma História de Sucesso

Big Resiliência: Uma História de Sucesso

Big Pastel: a família que transformou desafios em referência brasileira em Portugal

Entrevista com Jean Carlos Cordeiro, fundador do Big Pastel, para a revista Olhar Brasileiro em Portugal

Chegou a Portugal em 2022 com a família completa, sem conhecer ninguém, sem documentos e com pouco dinheiro no bolso. Hoje, Jean Carlos Cordeiro comanda o Big Pastel, uma das referências mais fortes da comida brasileira em Braga, com lojas também em Famalicão e no Porto. Nesta conversa exclusiva, ele conta como a resiliência familiar transformou uma ideia simples — pastéis grandes, bem recheados e com tempero de casa — num negócio que faz brasileiros e portugueses se sentirem em casa.

Jean, o que trouxe você e a família para Portugal?

Morávamos em Santa Catarina. Eu sou paranaense, mas fomos muito jovens para o Sul. A gente queria viver fora, experimentar outro país. Portugal tinha a língua e, na altura, a possibilidade de fazer a Manifestação de Interesse e regularizar a situação. Não era necessidade de sair do Brasil. Era curiosidade, vontade de explorar. E viemos a família toda: pai, mãe, meu irmão e eu.

É verdade que vocês largaram tudo?

Largamos. Eu era projetista, fazia faculdade de Arquitetura e trabalhava com interiores e móveis sob medida. Meus pais eram funcionários públicos. Viemos com a mala, sem conhecer ninguém.

Por que Braga?

Chegamos e ficamos uma semana num Airbnb no Porto. Era o prazo que tínhamos para achar um arrendamento. Ninguém queria arrendar porque não tínhamos NIF, documentos, nada. Procurando no Facebook, surgiu um apartamento em Braga. Nem conhecíamos a cidade. Foi no último dia do Airbnb. Fechamos sem ver o apartamento. Quando chegamos, gostamos muito.

Como foi a adaptação?

Pegamos a chave no mesmo dia em que acabava o Airbnb. O apartamento não tinha água, luz nem gás. Não tinha móveis, não tinha colchão. O dinheiro estava apertado. Compramos no Ikea aqueles colchões que vêm enrolados e cobertas. Ficamos duas semanas assim: íamos à garagem buscar água no balde para tomar banho e usávamos a casa de banho do Lidl ao lado. Foi duro, mas estávamos com propósito: “vamos fazer dar certo”.

Ninguém da família tinha experiência em empreendedorismo ou em pastelaria?

Nenhum. Meu pai era operador de retroescavadeira, minha mãe merendeira. Eu nunca tinha empreendido. No começo, cada um foi atrás de qualquer emprego para pagar as contas. Meu pai foi para a obra, minha mãe para a limpeza, eu para lavagem de carros. Trabalhos pesados, no frio. No primeiro emprego, trabalhei dois meses e não recebi. O chefe disse que eu não tinha documentos e que podia ir atrás dos meus direitos. Não tinha o que fazer. Não queria arrumar confusão num país novo.

Quanto tempo ficaram nessa rotina antes de abrir o Big Pastel?

Chegamos em fevereiro de 2022. Abrimos o Big em julho de 2023. Ficamos cerca de um ano e meio. As coisas não andavam. Meu pai tinha emagrecido muito, minha mãe também estava no limite. Eles tinham dois anos de licença no Brasil e já tinham decidido voltar no final do ano. Meu irmão mais novo, que tinha 15 ou 16 anos, não se adaptou, ficou doente e voltou para morar com a avó. Ficamos só nós três. Eu não queria que eles fossem embora.

E como surgiu a ideia do pastel?

Eu trabalhava de dia numa lavação de carros em Barcelos e à noite fazia part-time num sushi, no mesmo espaço onde depois ficou a nossa primeira loja. Fiquei amigo do dono, o Raul. Ele disse que ia sair e perguntou se eu queria ficar com o ponto. Eu não entendia nada de sushi. Comecei a pesquisar o que poderia abrir ali. Lembrei dos pastéis grandes que a gente comia em Santa Catarina. Em Braga não tinha nada parecido: pastéis enormes, bem recheados. Levei a ideia para casa. Meu pai e minha mãe acharam loucura no começo, mas combinamos: vamos aprender.

Pesquisamos no YouTube como fazer massa. Na mesma noite compramos farinha e fizemos a primeira massa em casa. Ficou boa. O Raul nos ajudou muito: deixou a gente usar o espaço três meses sem pagar renda e parcelou a cozinha. Minha tia, que mora na Itália, emprestou mil euros. Foi com isso que começamos. As primeiras massas do Big Pastel foram abertas com uma garrafa de vinho. Chegávamos às 9h e ficávamos até meia-noite.

Trabalhar em família tem lados bons e difíceis. Como equilibram?

O lado positivo é a confiança. A gente sabe que pode contar um com o outro. O lado difícil é quando uma discussão no trabalho vira pessoal. Mas a base da nossa empresa é a família. Hoje somos seis irmãos e a maioria trabalha nas lojas. Quem entra e não é da família a gente trata como família também. Aniversários, comemorações, tudo junto. No começo, a renda de todos dependia do Big. Ou dava certo, ou voltávamos para o Brasil. Não tinha plano B.

O crescimento foi muito rápido. A que você atribui esse sucesso?

Fé em Deus e no objetivo. A primeira loja era minúscula. Em novembro do mesmo ano já mudamos para um espaço maior, ao lado da associação Uai. Depois ficou pequeno de novo. Hoje temos a loja da Rua Nova da Estação, que comporta cerca de 120 pessoas e está sempre cheia. Abrimos em Famalicão e no Porto.

O diferencial foi o tamanho e o sabor. Nossos pastéis pesam entre 600 e 700 gramas. É refeição. No início só tínhamos o Big. Depois criamos um tamanho menor porque muita gente não conseguia comer o grande inteiro. A gente traz o Brasil nos temperos, na massa, no ambiente. É um espaço barulhento, de conversa, de risada. As pessoas se sentem em casa. Viramos amigos dos clientes. Muita gente vai, gosta, indica e traz a família. Esse boca a boca foi o nosso maior motor.

Quais foram os maiores desafios como empreendedor em Portugal?

A burocracia. Não entendíamos nada de impostos, higiene, HACCP, documentação. Como nunca tínhamos trabalhado com comida, foi tudo novo. Sabíamos que, sendo brasileiros, chamávamos mais atenção e precisávamos ter tudo legal. Conseguimos um contabilista e fomos aprendendo. Depois, a mão de obra continua sendo um desafio grande. Quando abrimos uma vaga, demoramos para preencher.

Hoje também temos pizza, no estilo brasileiro, bem recheada. Foi quando minha irmã e meu cunhado entraram no negócio. Ele era pizzaiolo. Assim nasceu o Big Pastel e Pizza.

O que você diria para quem está no Brasil e sonha em empreender em Portugal?

Que não é fácil. Tem sacrifício, tem dias de vender dois ou três pastéis o dia inteiro. Mas se a família estiver unida no mesmo propósito e a gente tiver resiliência, dá para fazer. A gente partiu do zero, sem nunca ter feito pastel, e hoje o Big é referência. O importante é não desistir e manter tudo dentro da lei desde o começo.


Olhar Brasileiro

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