A Lança Afiada

A Lança Afiada

Por Viviane Oliveira Antonio

A palavra sai da boca como lança. Corta o ar. Fura o peito. E não volta. Nunca volta. Você pode pedir desculpas, pode tentar explicar, pode dizer que não era isso que queria dizer, mas a lança já foi atirada. E uma vez atirada, a palavra voa. Atravessa gerações. Ecoa em corredores. Ressoa em memórias que a pessoa carregará por toda a vida, mesmo que tente esquecer.

Palavra é poder. E não é metáfora. É literal mesmo.

Lá no começo de tudo, Gênesis capítulo um versículo três, para quem gosta de referências, Deus não pegou massa, não moldou barro, não usou as mãos. Ele falou. Haja luz. E houve luz. Haja terra. Terra. Haja vida. Vida. Pela palavra. Tudo pela palavra. A palavra que cria. A palavra que dá existência. A palavra que faz ser.

Agora olhe ao redor. Olhe para o mundo que estamos vivendo. E me diga: que palavras estão criando esse mundo? Que palavras estão sendo atiradas todos os dias como lanças afiadas?

Ódio. Divisão. Mentira. Todo mundo com a sua narrativa. Todo mundo defendendo a sua. Todo mundo gritando a sua. Porque hoje não existe mais a verdade. Existem verdades, no plural. Cada um com a sua. E quem tem o poder da palavra, quem grita mais alto, quem tem mais seguidores, quem tem mais curtidas, esse é quem diz o que é verdade.

Mas espera. Quem disse que essa pessoa tem poder? Quem deu esse poder? Nós. Fomos nós. Quando clicamos. Quando compartilhamos. Quando repetimos. A palavra tem poder porque nós damos poder a ela. E aí está o problema: nós escolhemos, com assustadora frequência, dar poder às palavras erradas.

O tempo passa. E enquanto passa, as palavras constroem realidades. Você não serve para nada. A criança cresce achando que não serve. Essa guerra é necessária. Milhares morrem. Essas pessoas são inferiores. O preconceito se instala e passa de geração em geração como herança maldita que ninguém quer assumir, mas todos carregam.

Palavra cria mundo. Palavra destroi mundo. E nós, você, eu, todos, somos responsáveis pelas palavras que escolhemos dizer. Ou não dizer.

Porque o silêncio também é palavra. Quando você cala diante da injustiça, você está dizendo que está tudo bem. Quando você não fala diante do absurdo, você está dizendo que pode continuar. O silêncio cúmplice tem o peso de um grito que nunca veio.

Em Portugal, em 2025 e 2026, o discurso político passou por uma mutação que merece atenção. Palavras que até há poucos anos eram consideradas inaceitáveis no debate público entraram pela porta da frente do Parlamento. O vocabulário da extrema-direita normalizou-se. Não de uma vez. Devagar. Como a água que entra num barco com um furo pequeno. Quase não se nota. Até notar demais.

Há uma coisa que precisa ficar clara: religião, ciência e política não podem andar juntas sem risco. Porque quando você mistura fé com poder, quando você mistura verdade científica com narrativa política, quando você transforma crença em lei, tudo desmorona. Mas é exatamente isso que estamos fazendo. Estamos misturando tudo. E o resultado é um mingau sem forma, uma papinha ideológica onde ninguém sabe mais o que é fato, o que é opinião, o que é crença.

Os media portugueses, pressionados pela velocidade das redes sociais e pela crise de financiamento que reduziu redações e empobrece a produção jornalística, tornaram-se palco onde qualquer opinião, desde que dita com convicção suficiente, adquire o mesmo peso de um facto verificado. E quando a mentira e a verdade dividem o mesmo espaço com a mesma luz, as pessoas deixam de conseguir distingui-las. Não por falta de inteligência. Por excesso de barulho.

E aqui está o contrasenso que me fascina: se a palavra pode criar mundos, pode também destruí-los. Estamos a assistir a essa destruição em câmara lenta em Portugal. As palavras que descrevem os sem-abrigo, as que falam dos bairros sociais, as que classificam quem chega de fora, estão a construir uma realidade onde cada vez mais pessoas se sentem autorizadas a tratar mal quem é diferente delas. Não porque sejam maus. Mas porque as palavras que ouviram repetidamente criaram um mapa mental onde essa crueldade parece razoável.

Palavra cria mundo. E nós, em Portugal, em 2026, estamos a criar que mundo exatamente?

Use a palavra com cuidado. Ou não use. Mas lembre-se: o silêncio também é palavra. E a palavra mais poderosa que existe não é a mais eloquente. É a mais verdadeira. É a que vem de quem tem o direito de dizer porque viveu o que está dizendo. Essa palavra não precisa gritar. Ela já chega afiada o suficiente. E ela é a única capaz de construir algo que valha a pena habitar.

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