No Meio do Caminho

No Meio do Caminho

Autora: Viviane Oliveira

A agência de regularização de documentos está cheia como sempre. Filas que se estendem até à rua, pessoas de pé há horas, olhares cansados que já conhecem a rotina. Ali dentro, entre a humidade das paredes e o cheiro a papel e café requentado, cruzam-se histórias que nunca serão contadas nos relatórios oficiais.

Numa cadeira de plástico azul, uma mulher brasileira de cerca de quarenta anos segura um envelope amarelo cheio de documentos. Ao lado, um jovem nepalês mexe no telemóvel enquanto espera a senha. Mais à frente, um casal ucraniano fala baixo em russo. Todos ali partilham algo: estão no meio do caminho.

Portugal tem hoje mais de 1,5 milhões de imigrantes cerca de 15% da população total. Os números são recentes, divulgados pela Agência para a Integração, Migrações e Asilo no final de 2024, e representam quase uma quadruplicação em sete anos. Desses, 1,076 milhões trabalham e contribuem para a Segurança Social, representando 24% da força de trabalho ativa do país. São dados que dizem muito, mas que não dizem tudo.

Não dizem, por exemplo, o que acontece dentro de uma pessoa quando deixa tudo para trás. A zona de conforto não é apenas um lugar físico é o sotaque que todos entendem, o café que se pede sem explicar, a piada que não precisa de tradução. É a certeza de saber onde fica cada rua, de reconhecer rostos na esquina, de pertencer sem esforço.

Chegar a um país novo é reconfigurar tudo isso. Aprender a dizer ‘bom dia’ na entoação certa. Perceber que, ‘pois’, pode significar dez coisas diferentes. Descobrir que o correio funciona de outra maneira, que o médico de família não existe automaticamente, que as regras sociais são subtis e ninguém as explica. É ter de se apresentar sempre, justificar sempre, explicar sempre.

E depois, quando finalmente se começa a entender o novo lugar, quando se aprende onde comprar o pão mais barato e qual autocarro apanhar, quando se fazem os primeiros amigos e se sente que talvez isto possa ser casa, acontece algo inesperado: a terra natal começa a desaparecer.

Não desaparece de repente. É um processo lento, quase imperceptível. Um primo casa-se e não se está lá para a festa. Uma avó adoece e só se fica a saber dias depois. Os vizinhos da infância mudam-se. A rua onde se cresceu tem agora prédios novos. A pastelaria fechou. O melhor amigo arranjou um grupo novo. A cidade continua a viver, mas sem esperar por quem partiu.

E um dia, numa videochamada ou numa visita rápida nas férias, percebe-se: já não se pertence completamente àquele lugar. As conversas têm referências que não se conhecem. As discussões políticas envolvem nomes que não se acompanhou. Até à forma de falar mudou há palavras portuguesas que se misturam com as do Brasil, expressões locais que substituíram as antigas. Olha-se para a própria família e sente-se uma distância subtil, um desencontro pequeno, mas real.

É então que se percebe a cruel verdade da imigração: não se está completamente em lado nenhum. Não se é daqui, porque continuam a perguntar ‘de onde és?’, porque o sotaque denuncia, porque há códigos culturais que nunca se dominam por completo. Mas também já não se é completamente de lá, porque a vida seguiu sem ti, porque os anos mudaram tudo, porque a memória que se tem daquele lugar já não corresponde ao que ele é hoje.

No café ao lado da agência de regularização, juntam-se às vezes à hora do almoço. Uma tasca simples, com toalhas de xadrez e um televisor no canto. Ali misturam-se os que chegaram há meses e os que estão há uma década. Engenheiros a trabalhar em obras. Médicos a fazer limpezas. Professores a servir às mesas. Contam histórias, riem, queixam-se. Falam das expectativas que tinham quando embarcaram no avião  a ideia de uma vida melhor, de oportunidades, de futuro.

Alguns encontraram isso. Conseguiram validar diplomas, abrir negócios, construir carreiras. Outros trabalham muito mais do que trabalhavam antes, ganham pouco, vivem em quartos partilhados, enviam dinheiro para casa todos os meses e perguntam se se valeu a pena. Mas voltar já não é simples. Porque em casa já não há emprego à espera. Porque os filhos nasceram aqui e falam português de Portugal. Porque voltar seria recomeçar outra vez do zero, só que agora com mais idade e menos energia.

Então ficam. No meio do caminho. Com um pé aqui e outro lá, ou talvez sem pés firmes em lugar nenhum. Vivem numa espécie de limbo afetivo, onde o Natal é sempre triste porque não se pode estar com toda a gente, onde o aniversário é pelo Zoom, onde as notícias ruins chegam já tarde demais para se fazer alguma coisa.

Os números não mostram isto. Não mostram que 85,5% dos imigrantes em Portugal são população ativa porque não têm escolha ou trabalham ou não comem. Não mostram que muitos dos que contribuem com milhares de milhões para a Segurança Social vivem em condições precárias, em quartos sobrelotados, sem contrato, sem direitos. Não mostram que a crise habitacional atinge os imigrantes em cheio, que há famílias a viver em garagens, que há gente qualificada a aceitar salários abaixo do mínimo porque precisa de regularizar a situação.

E não mostram, sobretudo, o peso psicológico de viver permanentemente entre dois mundos. A ansiedade constante de não pertencer. A culpa de não estar presente. O cansaço de ter sempre de provar o próprio valor. A solidão profunda de quem está rodeado de gente, mas se sente sozinho. O luto antecipado de saber que quando voltar se voltar nada será como antes.

Na agência, a senha finalmente aparece no ecrã. A mulher brasileira levanta-se, respira fundo, agarra no envelope amarelo. Dentro estão fotocópias do diploma, certidões, comprovativos de residência, declarações de rendimentos. Papéis que comprovam que ela existe, que está aqui, que tem o direito de ficar. Mas nenhum papel comprova o que realmente importa: que ela deixou metade de si noutro continente e que, mesmo que consiga juntar todos os documentos, nunca mais será inteira.

É essa a realidade de quem emigra. Não é só uma questão económica ou burocrática. É existencial. É acordar todos os dias num lugar onde se é sempre ‘o outro’, mas já não se conseguir voltar a ser ‘o mesmo’. É viver no meio do caminho, naquela zona cinzenta entre dois países, duas culturas, duas versões de si próprio.

E é perceber, tarde demais, que a casa à qual se sonhava regressar já não existe. Porque a casa não é um lugar é um tempo. E o tempo não espera por ninguém, muito menos por quem partiu.

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