Isso Não Se Pode, Glória
Autora: Viviane Oliveira
No café ao lado da Praça dos Restauradores, um homem de meia-idade mexe distraidamente no açúcar enquanto olha para a televisão no canto. São 18h30 de uma quarta-feira de setembro. Lisboa regressa ao ritmo habitual depois das férias, mas ainda está cheia de turistas que passeiam com mapas na mão e selfie sticks erguidos ao sol da tarde.
Nos últimos minutos, porém, algo mudou. O telejornal interrompeu a programação. Imagens aéreas mostram a Calçada da Glória cheia de ambulâncias, bombeiros, polícia. O Elevador da Glória aquele ícone amarelo que aparece em todos os postais, em todos os Instagram, em todas as memórias de quem visitou Lisboa está tombado, despedaçado, irreconhecível.
O homem larga a colher. A empregada para com a bandeja no ar. Um casal de turistas franceses levanta-se e aproxima-se do ecrã. Ninguém fala. As imagens são suficientemente claras: houve um descarrilamento. Há mortos. Muitos mortos.
«Isso não se pode!», murmura alguém no fundo do café.
E nessa frase simples, quase banal, cabe tudo o que viria a seguir nos dias, semanas e meses seguintes. Porque no fundo, quando alguém diz “isso não se pode”, está a dizer muito mais do que parece. Está a dizer: isto não deveria ter acontecido. Isto era evitável. Isto é inaceitável.
Na praça em frente ao café, as pessoas começam a aglomerar-se. Alguns olham para os telemóveis, outros falam ao telefone com familiares, amigos, colegas. As notícias chegam aos poucos, contraditórias, confusas. Primeiro dizem 15 mortos. Depois 16. Depois 17. Mas afinal são 16 houve uma duplicação no registo, esclarece a Proteção Civil mais tarde.
Dezasseis pessoas. Dezasseis vidas. Cinco portugueses, dois sul-coreanos, um suíço, um alemão, dois canadianos, um ucraniano, um norte-americano, um francês.
Turistas que vieram ver Lisboa. Moradores que usavam o elevador todos os dias. Um guarda-freio que estava a fazer o seu trabalho.
Na praça, uma mulher chora ao telefone. Não se percebe o que diz, mas percebe-se tudo. Outra pessoa senta-se num banco e fica ali, imóvel, a olhar para o nada. Um grupo de jovens comenta em voz baixa. Todos têm a mesma pergunta: como é que isto aconteceu?
Porque o Elevador da Glória não é apenas um meio de transporte. É um símbolo. É a Lisboa que resiste, a Lisboa histórica, a Lisboa que ainda tem bonde e ascensores do século XIX a funcionar. É a glória da engenharia portuguesa de outros tempos. É o orgulho de uma cidade que se vende como destino turístico de excelência.
E agora, ali, no meio da Calçada da Glória, a glória caiu. Literalmente. Descarrilou, embateu num prédio, matou dezasseis pessoas. A glória transformou-se em tragédia.
Nessa noite, em casas por toda a cidade, as famílias sentam-se à frente da televisão. Os telejornais repetem as mesmas imagens, as mesmas informações. Falam da quebra do cabo de segurança. Falam das 87 viagens diárias que o elevador fazia. Falam da última inspeção, feita nessa mesma manhã, que durou apenas 30 minutos e deu luz verde ao funcionamento.
Numa sala de estar em Alvalade, uma família discute. O pai diz que isto é o resultado de anos de desleixo. A mãe lembra-se de que em 2018 já tinha havido um descarrilamento sem vítimas, e que o elevador ficou parado um mês. O filho mais velho menciona que em 2024 houve uma colisão no topo da calçada, e em maio de 2025 outra colisão com um veículo de manutenção. Três avisos. Três sinais ignorados.
Mas a Carris disse que cumpriu todos os protocolos de manutenção observa a filha mais nova, repetindo o que ouviu nas notícias.
Cumpriu ou disse que cumpriu? responde o pai. Porque se cumpriu tudo direitinho, como é que dezasseis pessoas morreram?
Ninguém tem resposta. Porque no fundo, essa é a questão central de tudo isto. Os protocolos foram cumpridos? Se sim, então os protocolos estavam errados. Se não, então houve negligência. Em qualquer dos casos, alguém falhou. E dezasseis pessoas pagaram com a vida.
Nos dias que se seguiram, a palavra “glória” ganhou novos significados. Já não era apenas o nome de um elevador. Era uma metáfora. Uma metáfora sobre um país.
Portugal gosta de se vender como um país de glória. Glória nos Descobrimentos. Glória na História. Glória na gastronomia, no vinho, no fado, no sol, nas praias, nas cidades que parecem museus a céu aberto. Vendemos a glória. Vivemos da glória. Construímos toda uma economia turística baseada na ideia de que Portugal é glorioso.
Mas o Elevador da Glória mostrou o outro lado. Mostrou a decadência escondida por trás dos postais bonitos. Mostrou a infraestrutura envelhecida, a manutenção terceirizada para a empresa mais barata, os concursos públicos desertos porque ninguém quer fazer o trabalho pelo preço oferecido, o ajuste direto de última hora para tapar o buraco.
Mostrou que a glória, quando não é cuidada, quando não é mantida, quando é explorada, mas não investida, acaba por cair. E quando cai, mata.
Nas conversas de café, nas casas, nas praças, as pessoas começaram a falar não apenas do elevador, mas de tudo o resto. Do estado dos comboios. Do estado dos hospitais. Do estado das escolas. Do estado das estradas. Do estado do Estado.
Porque se um elevador centenário que é fiscalizado, inspecionado e mantido por lei pode matar dezasseis pessoas num dia normal de trabalho, o que mais pode falhar?
Que outras glórias estão prestes a cair?
Voltemos ao café. Passaram-se semanas desde o acidente. O televisor continua ligado, mas agora mostram outras notícias. O Governo decretou luto nacional. A oposição exigiu responsabilidades. O presidente da Carris apresentou a demissão.
Foram abertas investigações do Ministério Público, do GPIAAF, da Assembleia Municipal. Prometeram relatórios, auditorias, transparência.
As pessoas no café ouvem, acenam com a cabeça, voltam ao seu quotidiano. Porque no fundo, já se sabe como isto acaba. Haverá um bode expiatório. Haverá promessas de mudança. Haverá indignação durante alguns meses. E depois, lentamente, tudo voltará ao normal. Até ao próximo acidente.
Porque há coisas que em Portugal simplesmente não mudam. Há uma cultura do “desenrasca”, do “assim vai indo”, do “sempre foi assim”. Há uma normalização da mediocridade, uma aceitação tácita de que as coisas não funcionam bem, mas também não funcionam assim tão mal.
Até que um dia, funcionam muito mal. E alguém morre. E aí diz-se: “Isso não se pode.” E tem razão. Não se pode. Mas acontece na mesma.
Há uma ironia cruel em tudo isto. O Elevador da Glória foi inaugurado em 1885.
Funcionou durante 140 anos. Sobreviveu a duas guerras mundiais, a uma ditadura de 48 anos, a uma revolução, a crises económicas, a terramotos menores, a tudo. E descarrilou em 2025, em plena democracia, em plena paz, numa das cidades mais visitadas da Europa.
Descarrilou não por falta de tecnologia. Não por falta de conhecimento. Não por catástrofe natural. Descarrilou por desleixo. Por negligência. Por uma cadeia de decisões pequenas e aparentemente inofensivas que, somadas, resultaram numa tragédia.
E isso é que é verdadeiramente assustador. Não foram os grandes escândalos, não foi a corrupção evidente, não foi o crime organizado. Foi a banalidade da incompetência. Foi o concurso público deserto porque o preço base era demasiado baixo. Foi o ajuste direto de emergência. Foi a inspeção de 30 minutos. Foi o cabo que devia ser trocado dali a 263 dias. Foi a manutenção externalizada para cortar custos. Foi tudo isto junto.
E quando juntamos tudo isto, obtemos não apenas um elevador que descarrila.
Obtemos um país que descarrila.
Numa casa em Benfica, uma avó conta à neta a história do 3 de setembro de 2025. Conta-lhe que nesse dia, um elevador centenário matou dezasseis pessoas. Conta-lhe que o país ficou em choque. Conta-lhe que houve luto, investigações, promessas.
E mudou alguma coisa? pergunta a neta.
A avó fica calada por uns segundos. Pensa. Quer dizer que sim, que mudou tudo, que nunca mais aconteceu nada assim, que aprendemos a lição. Mas seria mentira. E a neta merece a verdade.
Mudou pouca coisa responde. Durante uns meses ficámos todos alerta. Mas depois… depois a vida continuou. E nós, portugueses, somos muito bons a continuar.
Mesmo quando não devíamos.
Porque essa é, talvez, a maior glória e a maior decadência de Portugal. Somos um povo que aguenta. Que resiste. Que continua. Que sobrevive a tudo. Mas essa resiliência, essa capacidade de absorver o choque e seguir em frente, tem um preço. O preço é que normalizamos o inaceitável. O preço é que nos habituamos ao mau funcionamento. O preço é que dizemos “isso não se pode”, mas depois deixamos que se possa.
O café ao lado da Praça dos Restauradores continua aberto. As pessoas continuam a tomar o seu café, a comer o seu pastel de nata, a olhar distraidamente para a televisão. A vida continua. Lisboa continua. Portugal continua.
Mas na Calçada da Glória, onde antes subia e descia o elevador amarelo, há agora um vazio. Um vazio físico o elevador não voltou a funcionar. Um vazio simbólico a glória que caiu. E um vazio moral as perguntas sem resposta.
Dezasseis pessoas morreram naquele dia de setembro. Dezasseis famílias ficaram destroçadas. Dezasseis conjuntos de sonhos, planos, futuros foram interrompidos abruptamente porque um cabo partiu, porque uma empresa não fez bem o trabalho, porque alguém assinou um papel sem verificar, porque alguém aprovou um orçamento insuficiente, porque alguém preferiu poupar dinheiro a garantir segurança.
E a resposta coletiva foi: “Isso não se pode.”
Mas aconteceu. E vai voltar a acontecer. Noutro elevador, noutro comboio, noutra ponte, noutro hospital. Vai acontecer porque continuamos a aceitar que “assim vai indo”. Porque continuamos a aplaudir a glória do passado enquanto deixamos apodrecer a infraestrutura do presente. Porque continuamos a vender Portugal como destino de sonho enquanto os portugueses vivem num país que descarrila.
Isso não se pode, Glória. Mas pode. E acontece. E continuará a acontecer enquanto não percebermos que a glória não se mantém sozinha. Que a glória exige trabalho, investimento, seriedade, competência. Que não basta vender o passado é preciso construir o futuro.
Até lá, continuaremos a dizer “isso não se pode” sempre que um cabo partir, sempre que uma estrutura ceder, sempre que a negligência matar. Continuaremos a indignar-nos, a exigir justiça, a prometer mudança. E depois, lentamente, voltaremos ao normal. Porque é o que fazemos. É o que sempre fizemos. É a nossa glória e a nossa decadência.
3 de setembro de 2025. O dia em que a glória caiu na Calçada da Glória. O dia em que dezasseis pessoas morreram porque “isso não se pode”, mas se pôde. E essa, talvez, seja a verdadeira tragédia: não o acidente em si, mas a certeza de que vai acontecer de novo.

