Uma década de olhar brasileiro: Alexandra Gomide lança livro que registra dez anos de imigração, identidade e pertencimento em Portugal
Presidente da Associação UAI reúne em obra inédita uma memória social e institucional da imigração brasileira em Portugal, com lançamento emocionante em Braga diante de autoridades, pesquisadores e membros da comunidade
Por Viviane Oliveira Antônio
Havia exatamente dez anos desde que Alexandra Gomide embarcou no aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, com suas malas e a coragem de quem recomeça a vida do outro lado do oceano. Na noite do lançamento do seu livro “Um Olhar Brasileiro em Portugal: Voz, Legado e Futuro”, no Centro Cultural Montemuro, em Braga, esse tempo transformou-se em páginas, em memória e em reflexão coletiva. O momento reuniu autoridades municipais, pesquisadores, profissionais da integração e dezenas de membros da comunidade brasileira numa celebração que foi, ao mesmo tempo, pessoal e histórica.
A obra, publicada pela escritora e também fundadora e presidente da associação (UAI ) União, Apoio e Integração , não é apenas um relato autobiográfico. Ela documenta uma das fases mais intensas e transformadoras da imigração brasileira em Portugal, vista por alguém que não apenas viveu esse processo, mas dedicou uma década inteira a acompanhá-lo por dentro. São quinze capítulos que atravessam a decisão de partir, a chegada a Faro, a travessia pela pandemia, o “deserto” interior, as amizades construídas, as desilusões enfrentadas e, sobretudo, a aprendizagem contínua de coexistir em uma terra que se torna, com o tempo, também sua.
“Ao escrever esse livro, registrei a memória de um período importante da relação Brasil e Portugal. Não queria produzir uma narrativa de conflito, mas uma narrativa de compreensão, que sempre foi o meu papel desde o início.”
— Alexandra Gomide, autora e presidente da Associação UAI
Uma noite de escuta e reflexão
O lançamento aconteceu no espaço acolhedor do Centro Cultural Montemuro, presidido pelo Professor Doutor Ricardo Ribeiro, da Universidade do Minho, parceiro de longa data da UAI e uma das figuras que acompanha a trajetória de Alexandra em Braga. A noite começou com um momento musical conduzido por Ivaldo Moreira, que viajou especialmente de Aveiro para a ocasião, tocando músicas escolhidas pessoalmente pela autora. A mediação ficou a cargo da psicóloga clínica intercultural Dra. Lívia Grizzi, que contextualizou desde o início a dimensão humana e emocional por trás de cada história migratória.
Em seguida, uma mesa de reflexão reuniu a Dra. Sónia Diz, coordenadora do CLAIM, Centro Local de Apoio à Integração de Migrantes da Cruz Vermelha de Braga; a Dra. Hortense Santos, vereadora do município de Braga com a pasta da Coesão Social; e a própria autora, que encerrou a noite com um discurso marcante sobre responsabilidade, legado e futuro.


“A leitura desta obra despertou em mim inúmeras memórias e narrativas escutadas ao longo do meu percurso profissional. Histórias de percursos migratórios, mas acima de tudo, histórias de pessoas com talento, sonhos, aspirações e coragem para procurar, noutras geografias, o conforto que nem sempre encontram nos seus países de origem.”
— Dra. Sónia Diz, coordenadora do CLAIM, Cruz Vermelha de Braga
A coordenadora do CLAIM destacou que o livro de Alexandra transforma uma experiência pessoal em reflexão coletiva sobre identidade, pertença e humanidade. Ela ressaltou o trabalho da UAI como parceira no projeto InfoMigrante e reconheceu, diante de todos os presentes, o impacto real e concreto do trabalho associativo na vida de quem chega sem rede de apoio. Também pontuou dois momentos de reconhecimento institucional que constam na obra: em 2021, a integração de Alexandra no Conselho Municipal do Imigrante, Integração e Interculturalidade de Braga; e a distinção com o Braga de Mérito Municipal.
Braga em números: a força da presença brasileira
A vereadora Hortense Santos, que além da Coesão Social também responde pelas políticas de educação e cidadania do município, trouxe dados que contextualizam, em termos concretos, o peso da imigração brasileira em Braga. Os números revelam não apenas uma presença numerosa, mas uma transformação silenciosa e profunda na cidade.
Braga em Números — Imigração (Dados AIMA, 2024)
▸ Total de pessoas estrangeiras em Braga: 28.538
▸ Com título de residência (situação regular): 20.000
▸ Brasileiros residentes: 11.656, representam 56% do total de estrangeiros
▸ População total de Braga: mais de 200.000 habitantes
▸ Estrangeiros correspondem a cerca de 10% da população total
▸ Braga é o 11.º município com maior representação de população estrangeira em Portugal
▸ Maioria em idade ativa, com motivações ligadas a trabalho e estudos
▸ Países com maior presença: Brasil, Angola, Itália, Espanha e China
A vereadora fez questão de traduzir esses números em histórias reais. Citou escolas do primeiro ciclo que enfrentavam risco de fechamento por queda na matrícula e que foram revitalizadas pela chegada de crianças de origem brasileira. Turmas que desapareciam voltaram a existir. Esse detalhe, aparentemente pequeno, revela algo que os relatórios oficiais raramente capturam: a imigração não apenas ocupa espaço, ela restitui vida a lugares que estavam morrendo.
“Turmas que estavam a desaparecer fizeram exatamente a situação inversa com a integração destes alunos. A comunidade estrangeira, e no caso concreto a comunidade brasileira, traz muito para o nosso país e é preciso que todos entendam isso.”
— Dra. Hortense Santos, Vereadora do Município de Braga
Parceria de oito anos: a voz do município
O vice-presidente da Câmara Municipal de Braga, Eng. Altino Bessa, parceiro de trabalho de Alexandra há pelo menos oito anos, subiu ao palco e falou com a desenvoltura de quem conhece o trabalho da autora de perto. Sua fala misturou dados e emoção ao reconhecer a contribuição dos brasileiros na economia, na cultura e no cotidiano de Braga.
“Em Braga, a comunidade brasileira é muito grande e muito significativa em toda a nossa vivência do dia a dia. Numa escola, 30% dos alunos que fizeram as apresentações eram de origem brasileira. Estão integrados na nossa escola, os pais estão integrados no nosso mundo de trabalho. Há muito desempenho por parte destes imigrantes que levam negócios comerciais e empresariais que não seriam possíveis se esta comunidade não estivesse aqui.”
— Eng. Altino Bessa, Vice-Presidente da Câmara Municipal de Braga


O vice-presidente elogiou a trajetória de Alexandra à frente da UAI, chamando-a, com carinho e respeito, de guerreira, aquela que leva a bandeira na frente e segue com grande empenho, grande dedicação e que acredita muito no que faz. Bessa também revelou um projeto simbólico em discussão: a proposta de nomear um espaço em Braga de Jardim Brasil, como reconhecimento permanente da presença e da contribuição da comunidade brasileira na cidade.
“Se alguém conhecer o muito que Alexandra tem desenvolvido ao longo destes anos em prol desta comunidade, vai perceber que ela é muito a guerreira. Aquela que leva a bandeira na frente e segue com grande empenho, grande dedicação. Alexandra, muito obrigado por realizar esse trabalho aqui na nossa comunidade.”
— Eng. Altino Bessa
A obra: símbolo, estrutura e propósito
“Um Olhar Brasileiro em Portugal: Voz, Legado e Futuro” começou a ser escrito em 2017, apenas um ano após a chegada de Alexandra a Portugal. A convite de uma editora que a encontrou nas redes sociais, quando a UAI ainda não existia, ela redigiu os três primeiros capítulos ainda imersa na realidade que descrevia. O projeto foi suspenso, retomado, redirecionado e, por fim, transformado em algo maior do que uma autobiografia: um registro social da relação entre Brasil e Portugal numa década marcante.
Cada detalhe da publicação carrega intenção. A capa foi escolhida pela própria autora sem negociação. O prefácio foi escrito por um português que vive emigrado no Brasil há 71 anos e que se reconheceu na história de Alexandra. O posfácio ficou a cargo de Ricardo Rio, ex-presidente da Câmara Municipal de Braga nos últimos dez anos, o mesmo período em que Alexandra construiu sua trajetória na cidade. A paginação foi confiada a Ana Monteiro, coordenadora editorial que nunca havia diagramado um livro antes. E a impressão foi feita pelo Diário do Minho, veículo com o qual Alexandra mantém parceria desde 2018.


“O livro é um registro do presente para o futuro. Registro com posicionamento. Nem tudo o que a comunidade quer ouvir pode ser dito da forma que se espera. E nem tudo que as instituições fazem pode ser validado sem análise crítica. Ainda há muito a melhorar nos processos de integração.”
— Alexandra Gomide
Voz, Legado e Futuro: o subtítulo como manifesto
Alexandra explicou, com precisão e emoção, o significado de cada palavra do subtítulo. Voz: o imigrante não pode ser tratado por terceiros ou reduzido a estatísticas. Deve ser capaz de narrar suas experiências com consciência, sem vitimização, mas também sem invisibilização. Legado: não basta viver a experiência, é preciso entender o que se deixa. Que impacto está sendo gerado nas instituições, nas relações sociais, na forma como a próxima geração será percebida? Futuro: tudo o que fazemos hoje, como sociedade de acolhimento ou comunidade imigrante, está moldando o que virá.
Nessa lógica, o livro não fecha um ciclo. Ele abre um debate. E convoca, de maneira respeitosa mas direta, tanto a comunidade brasileira quanto a portuguesa a assumirem suas responsabilidades nessa relação. Cada brasileiro representa o Brasil. Cada português representa Portugal. Uma atitude, seja boa ou ruim, vai repercutir em toda uma comunidade. Todos temos essa responsabilidade.
A UAI como missão coletiva
A Associação UAI, União de Apoio ao Imigrante, sediada em Braga, atua há anos no apoio, orientação e fortalecimento da comunidade imigrante, especialmente a brasileira e a de países lusófonos. A entidade já foi reconhecida pelo ACM, Alto Comissariado para as Migrações, e pelo Município de Braga, e integra redes de cooperação institucional como o projeto InfoMigrante, desenvolvido em parceria com o CLAIM da Cruz Vermelha. O livro de Alexandra nasce também desse percurso coletivo: das histórias acompanhadas, das realidades vividas e da necessidade de ampliar o debate sobre imigração com mais humanidade, responsabilidade e escuta.

A obra está disponível para aquisição. A sessão de autógrafos que encerrou o evento, seguida de um porto de honra, transformou o Centro Cultural Montemuro em um espaço de encontro genuíno entre comunidades, exatamente o tipo de ponte que Alexandra Gomide passou uma década construindo.

