Celebrar o Brasil, viver Portugal

Celebrar o Brasil, viver Portugal

O Dia do Brasil numa Braga multicultural

No último sábado, Braga recebeu a 7.ª edição do Dia do Brasil. Mais do que uma festa brasileira, foi uma celebração feita por brasileiros para toda a comunidade: brasileiros, portugueses e pessoas de diferentes nacionalidades puderam encontrar-se em torno da música, da dança, da gastronomia e de diferentes expressões da cultura brasileira.

Para quem vive longe do país de origem, celebrar a sua cultura pode ser uma forma de reencontro. De aliviar as saudades, sentir sabores que despertam memórias afetivas e escutar músicas que remetem a lugares distantes. Há também a possibilidade de conhecer os muitos “Brasis” que existem e partilhar essas referências com quem nasceu em outros estados.

Já para os filhos de famílias brasileiras, essas celebrações ganham ainda outra dimensão. Muitos nasceram em Portugal ou chegaram ainda pequenos e têm com o Brasil uma relação construída a partir das histórias, memórias e referências dos pais. Festas como esta podem ajudar a transmitir uma cultura entre gerações, valorizando a origem e, ao mesmo tempo, abrindo portas para o encontro com a comunidade local.

A presença da Catira, dança tradicional da cultura caipira, especialmente presente em Goiás e no norte de Minas Gerais, trouxe uma metáfora para a própria experiência migratória. A viola, instrumento de origem portuguesa, um dia atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil. Lá, encontrou outras culturas, ritmos e formas de expressão, sendo transformada ao longo do tempo e incorporada à cultura brasileira. No Dia do Brasil, em Braga, pudemos assistir, de certa forma, ao retorno a Portugal de algo que um dia partiu daqui, mas que já não era o mesmo. Trazia consigo as marcas dos encontros vividos pelo caminho.

Na Psicologia Intercultural, John Berry propõe pensar a aculturação a partir das diferentes formas como o migrante se relaciona com a sua cultura de origem e com a sociedade de acolhimento. Nesse contexto, a integração acontece quando é possível preservar vínculos com a sua cultura e, ao mesmo tempo, construir uma participação ativa na nova sociedade. Integrar-se, portanto, não significa deixar de ser quem se é para tornar-se parte do lugar onde se vive. Significa poder acrescentar novas referências à própria história, construindo outros modos de viver e de pertencer.

Por sinal, Portugal conhece bem essa experiência. Portugueses que emigraram também levaram consigo festas, música, gastronomia e tradições, mantendo referências culturais nos países de destino e transmitindo-as às novas gerações. Celebrar Portugal fora de Portugal nunca foi visto como uma rejeição à cultura local. E por que não podemos pensar o mesmo sobre brasileiros que celebram o Brasil por cá?

Valorizar a nossa origem não implica, portanto, criar distância; pelo contrário, pode gerar aproximação. Nessa perspectiva, uma celebração cultural como o Dia do Brasil em Braga pode criar pontes de interculturalidade, convidando, inclusive, os portugueses a conhecerem o Brasil sem sair de casa. Uma oportunidade especialmente interessante num ano em que os portugueses se tornaram os maiores turistas europeus no Brasil, ultrapassando os franceses.

Assim, é possível celebrar o Brasil e viver Portugal. Sentir saudades da casa originária e criar uma nova morada. Transmitir uma cultura aos filhos e, ao mesmo tempo, construir novas formas de ser e pertencer na terra escolhida.

Afinal, as culturas que atravessam fronteiras não permanecem intactas. Levam consigo uma história, encontram outras histórias e voltam transformadas. Como a viola que atravessou o Atlântico, também nós podemos pertencer a um novo lugar, ampliando quem somos. Ora! A vida é continuidade, faz-se no caminho e está cada vez mais multicultural, pois não?!

Lívia Grizzi

Psicóloga Clínica Intercultural – OPP: 30056 | Conselheira da Associação UAI

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