O Titanic Somos Nós

O Titanic Somos Nós

Por Viviane Oliveira Antonio

Você já se sentiu assim? Como se estivesse num navio gigante, luxuoso, inafundável, aquela mentira que todo mundo repete até virar verdade, e de repente a estrutura cedeu. Bateu no iceberg. E agora? A água entra. Devagar. Você nem percebe de imediato. Mas entra.

Bem-vindo ao Titanic do século XXI. Nós somos os passageiros. E o iceberg? Ah, o iceberg somos nós mesmos.

Tudo está colapsando. Tudo. E não é exagero. É constatação. Olhe ao redor, não com preguiça, não de relance, olhe de verdade. O que você vê?

O clima está desmoronando. Furacões, enchentes, secas, incêndios. A natureza a avisar que foi ignorada por tempo demais e que perdeu a paciência. Os relacionamentos estão explodindo. Casamentos que duram menos que uma série de streaming. Amizades que acabam por um comentário numa rede social. Famílias que não se falam porque votaram diferente. A economia afunda. Inflação, recessão, desemprego, precarização. E enquanto isso, o bilionário comprou mais um iate. A classe média, aquela que existe só de nome, evaporou.

E as pessoas? Vazias. Ocas. Sem propósito. A vida passa enquanto se rola a tela do celular. E nada. Nenhuma conexão real. Nenhum sentido profundo. Só vazio.

A impressão que eu tenho, e não sou só eu, você também tem, admita, é que estamos todos no Titanic. Batemos no iceberg. A estrutura rachou. A água entra. E ninguém quer acreditar.

O que me inquieta mais do que o naufrágio em si é a negação. Sabe o que é pior do que o barco afundar? É a orquestra que continua tocando enquanto afunda. A orquestra continuava. Como se fosse possível negar a realidade com música.

E nós fazemos a mesma coisa. Continuamos fingindo. Continuamos postando foto feliz. Continuamos dizendo que está tudo bem. Continuamos comprando coisas que não precisamos com dinheiro que não temos para impressionar pessoas que não ligam. Porque admitir que o barco está afundando é assustador demais. Então a gente nega.

Portugal é um navio que navega em águas particularmente agitadas em 2026. Os incêndios florestais do verão de 2025 foram os mais devastadores da última década. Centenas de milhares de hectares arderam no centro e norte do país. Aldeias foram evacuadas. Animais morreram. Florestas que levaram um século a crescer desapareceram em dias. E quando o fumo baixou e as câmeras se foram embora, o que ficou foi cinza e silêncio.

Mas a orquestra continuou a tocar. O Governo anunciou medidas. Os partidos debateram responsabilidades. Os comentadores comentaram. E na primavera seguinte, os eucaliptos que ninguém cortou voltaram a crescer nos mesmos terrenos que arderam. Porque o problema não é o fogo. O fogo é a consequência. O problema é a floresta abandonada, é a política fundiária que favorece a monocultura do eucalipto, é a desertificação do interior que deixou de ter mãos para cuidar da terra, é a falta de vontade política real para enfrentar os interesses da indústria da pasta de papel.

Essa é a estrutura do Titanic português: saber onde está o iceberg, navegar na direção dele na mesma, e depois organizar uma comissão parlamentar para investigar o naufrágio.

O ser humano está acabando com tudo. Com o clima. Com as espécies. Com os recursos. Com os relacionamentos. Com a própria humanidade. É um divórcio entre a humanidade e a vida. Nós decidimos que podemos viver sem a natureza. Que podemos viver sem o outro. Que podemos viver sem propósito. E estamos a descobrir que não, não podemos.

Em Portugal, esse divórcio tem um rosto demográfico muito concreto. O país está a envelhecer a um ritmo que os economistas descrevem com eufemismos como desafio estrutural, mas que na prática significa o seguinte: há cada vez menos pessoas em idade ativa para sustentar um sistema de segurança social desenhado para uma população que já não existe. O interior esvaziou. As escolas fecharam. Os médicos de família desapareceram das aldeias. Os jovens foram para as cidades, depois foram para o estrangeiro, e muitos não voltaram.

O mundo que estamos vivendo foi criado por palavras. Por narrativas. Por discursos. Crescimento infinito. Progresso a qualquer custo. Consumir é viver. Palavras infladas pelo poder que criaram uma realidade insustentável. E agora? Cada um defendendo a sua narrativa. Não, o problema não é esse, é aquele! Não, a culpa não é minha, é sua! Enquanto isso, afunda.

Mas há uma coisa que o Titanic original nos ensina e que raramente se discute: alguns sobreviveram. Não todos. Não os que estavam nas cabines de terceira classe, que ficaram presos enquanto os de primeira classe ocupavam os botes. Mas alguns. E os que sobreviveram não sobreviveram porque foram mais corajosos ou mais inteligentes. Sobreviveram porque houve alguém que lhes estendeu a mão.

Em Portugal, em 2026, a pergunta que importa não é se o barco vai afundar. A pergunta que importa é quem vai ter acesso aos botes. Porque os botes existem. Sempre existiram. A questão é sempre a mesma: para quem são?

Os jovens portugueses que partem para a Alemanha, para o Reino Unido, para o Canadá, estão a procurar os botes que o seu próprio país não lhes ofereceu. As famílias que saem das cidades porque os senhorios triplicaram as rendas estão a fugir da água que entra. Os professores que se demitem porque os salários não chegam ao fim do mês estão a dizer que este navio não vale a pena afundar com ele.

Então a pergunta é esta: você vai continuar na orquestra? Vai continuar a tocar enquanto o barco afunda? Ou você para, olha ao redor e diz a verdade? O barco tem problemas. Para de fingir. Para de negar. Vamos fazer alguma coisa. Agora. O Titanic afunda. E nós somos os passageiros. Somos a orquestra. Somos o iceberg. E podemos ser, se quisermos com determinação suficiente, também os que decidiram que era hora de fazer diferente. Mas escolha rápido. O tempo está acabando.

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