A Sede de Pertencer

A Sede de Pertencer

Por Viviane Oliveira Antonio

É assim que chegamos ao mundo: pedindo. Não com palavras, porque ainda não as temos, mas com o corpo inteiro. Com o grito que rasga o silêncio do quarto e anuncia que alguém novo está aqui, que existe, que precisa. A primeira pergunta que fazemos ao mundo não é filosófica nem elegante. É urgente. É crua. Tem alguém aí para mim?

Crescemos. E crescer é aprender a fazer essa mesma pergunta de formas cada vez mais sofisticadas, de maneiras que disfarcem a urgência, que escondam o quanto ainda precisamos de resposta. Posso brincar com vocês? Vocês vão me escolher para o time? Posso sentar aqui? A vida inteira pedindo passagem. Pedindo pertencimento.

Mas aqui está o paradoxo que não me larga: a gente nasce sozinho. Sozinho mesmo, sem acompanhante, sem assessoria, sem ninguém segurando a mão do lado de cá. E vai embora do mesmo jeito. O último suspiro não tem curtida. Não tem comentário. Não tem validação.

Então por que passamos a vida inteira desesperados para pertencer?

Olhe para você agora. Olhe para a roupa que está vestindo. Por que escolheu essa cor, essa marca, esse estilo? Você vai dizer que é porque gosta. Claro que gosta. Mas gostar é só seu ou você aprendeu a gostar porque alguém disse que era bonito, que era certo, que era o que se usa?

Pense nas suas opiniões. Nas coisas que você defende com a determinação de quem nunca teve dúvida. Quantas delas são realmente suas? Quantas você herdou? Quantas você adotou, quase sem perceber, para não ficar de fora?

O relógio não para. E nós passamos os dias, todos os dias, buscando validação. Você postou a foto. Quantos gostaram? Você deu aquela opinião. Quantos concordaram? Você fez aquela escolha. Quem aprovou? É exaustivo. É patético. É profundamente, dolorosamente humano.

Talvez a gente precise pertencer justamente porque sabe que está sozinho. Talvez a solidão essencial da existência seja tão assustadora que precisamos criar, inventar, fabricar conexões para não olhar de frente para ela.

Pense no brinde. No convívio em família. No carro que você compra não para andar, mas para mostrar. Nas conversas que você tem não para trocar ideias, mas para não ficar em silêncio. Porque o silêncio nos lembra que estamos sós. E estar só é insuportável. Então a gente enche o vazio com barulho, com gente, com grupos, com pertencimento.

Mas pertencer a um grupo significa não pertencer a outro. Significa escolher. Significa excluir. Significa dizer: eu sou desse lado, não daquele. E aí começa a guerra.

Portugal está a viver em 2026 uma crise de pertencimento que vai muito além da habitação. O problema das casas é real e visível: os preços subiram tanto que Lisboa e Porto expulsaram dos seus centros as pessoas que construíram esses centros durante décadas. Famílias que viveram no mesmo bairro por gerações foram empurradas para as periferias por senhorios que preferiram o alojamento local ao arrendamento de longo prazo. Jovens que estudaram, trabalharam, pagaram impostos e fizeram tudo certo descobriram que certo não era suficiente. O lugar onde cresceram já não tem espaço para eles.

Mas a expulsão física é apenas a parte que se mede em euros por metro quadrado. Há uma expulsão mais silenciosa que os relatórios de habitação não registam. É a expulsão simbólica. A sensação de que a cidade mudou de língua, de rosto, de ritmo, e que você, que sempre esteve aqui, passou a ser estrangeiro no lugar onde nasceu. Essa desorientação tem um nome clínico: anomia. O sociólogo Émile Durkheim descreveu-a no século XIX como a perda dos laços que ligam o indivíduo à comunidade. O que ele não sabia é que um dia esses laços seriam cortados não pela revolução, mas pela especulação imobiliária.

O que está a acontecer em Portugal não é apenas uma crise económica. É uma crise de pertença. E ela afeta igualmente o jovem português que não consegue alugar um quarto no bairro onde cresceu, o trabalhador que acorda às cinco da manhã para apanhar dois autocarros porque foi para longe, e cada pessoa que chegou de outro país e descobriu que pertencer não é um direito automático, mas uma conquista diária que nunca está completamente garantida.

Ontem vi uma criança chorando porque não foi escolhida para o time. O choro do começo da vida voltando no meio dela. Não mudou nada. Só crescemos. Só aprendemos a disfarçar.

Porque o adulto chora também. Só que por dentro. Ninguém pode saber que eu não fui promovido. Ninguém pode saber que eu não fui convidado para aquela festa. Ninguém pode saber que eu me sinto de fora. E em Portugal, em 2026, essa frase tem endereço certo: é o estudante que pediu apoio social e não conseguiu vaga, é o idoso que fica no apartamento sem conseguir pagar a renda nova, é quem acorda com a sensação de que este país está a tornar-se pequeno demais para tanta gente que o quer habitar.

A pergunta que não quer calar: e se a gente parasse? E se a gente simplesmente aceitasse que veio sozinho e vai sozinho? Que no meio do caminho a companhia é boa, é gostosa, é necessária até, mas não é obrigatória? E se a gente deixasse de bater em portas esperando que alguém abra? E se a gente parasse de pedir validação, de pedir aprovação, de pedir licença para existir?

Alguém aí? Sim. Você. Sempre foi você. Você é suficiente. Mesmo sozinho. Especialmente sozinho. E quando encontra os outros, não para preencher o vazio, mas para ampliar o que já é inteiro, aí sim a companhia tem outro nome. Tem o nome daquilo que as cidades deveriam oferecer, que as políticas deveriam proteger, que os governos deveriam garantir: um lugar no mundo onde a sua existência não precise de ser justificada todos os dias.

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