Alexandra Gomide

Alexandra Gomide

10 Anos em Portugal – Uma Jornada de Coragem, Adaptação e Legado

Alexandra Gomide é um dos nomes mais respeitados e influentes da comunidade brasileira em Portugal. Professora universitária no Brasil, decidiu há uma década trocar uma vida estruturada e confortável por um recomeço no Minho. Fundadora do Olhar Brasileiro — uma das principais plataformas de informação, acolhimento e integração de brasileiros em Portugal — Alexandra celebra agora 10 anos no país com o lançamento de um livro que relata sua jornada. Nesta entrevista exclusiva à Revista Olhar Brasileiro, ela abre o coração sobre os motivos da mudança, os desafios da adaptação, a criação da associação UAI e o legado deixado na comunidade luso-brasileira.

Como surgiu a decisão de deixar uma vida profissional consolidada no Brasil para recomeçar do zero em Portugal?

A decisão nunca tem uma única razão. No Brasil, eu tinha uma carreira sólida como professora universitária, estabilidade financeira e uma vida tranquila. Não havia um motivo aparente para sair. No entanto, ao viajar com a família pela América Latina, Europa e os Estados Unidos, comecei a perceber falhas no nosso sistema que me incomodavam cada vez mais. Sentia que não me encaixava mais no meu próprio ambiente. Segurança, qualidade de vida e, principalmente, o futuro dos filhos foram fatores determinantes. Foi uma transformação grande, mas muito pensada.

Você era professora universitária com mestrado. Como foi essa transição de carreira ao chegar a Portugal?

Vim preparada para não dar aulas. Sabia que revalidar títulos e ingressar no ensino superior não seria um caminho simples. Queria mais paz e tranquilidade. Chegamos com a ideia de viver no Algarve, perto da praia. Meu marido tinha planos de conduzir um Tuk-tuk e eu imaginava algo ligado a Reiki e bem-estar. A realidade foi bem diferente (risos).

E como nasceu o Olhar Brasileiro? Foi algo planejado ou aconteceu naturalmente?

Foi completamente natural. Logo que cheguei a Braga, criei o Olhar Brasileiro ainda como uma página simples no Facebook e um canal no YouTube para responder dúvidas de brasileiros que me contactavam. Na época, Instagram nem tinha grande alcance. Eu respondia perguntas, gravava vídeos explicando o dia a dia em Portugal e, sem esperar, o projeto ganhou uma dimensão enorme. Muitos brasileiros vinham de outras cidades só para conversar comigo. Aquilo começou a ocupar todo o meu tempo.

Percebi que precisava estruturar melhor o apoio. Havia questões jurídicas, psicológicas e práticas que exigiam especialistas. Assim surgiu a ideia da associação UAI (União, Apoio e Integração), para profissionalizar e ampliar esse acolhimento.

Quando você chegou, Braga ainda era pouco conhecida pelos brasileiros. Hoje é uma das cidades com maior concentração. Sente que o seu trabalho ajudou a mudar esse cenário?

Sem dúvida. Muitos me dizem que usaram meus vídeos e materiais como referência para planejar a mudança. Organizei almoços, piqueniques e eventos que deram origem a vários grupos que ainda existem até hoje na cidade. O mais bonito é ver que, mesmo quem já saiu de Braga ou de Portugal, continua acompanhando o trabalho e enviando mensagens diárias. Isso mostra que criámos uma rede de apoio real.

Ao longo destes 10 anos, qual foi o maior desafio e o maior aprendizado?

O maior desafio foi sair da zona de conforto. Eu tinha alcançado todos os objetivos profissionais no Brasil. Recomeçar exige humildade e resiliência. O maior aprendizado foi perceber que as portas se abrem quando estamos dispostos a servir. Nunca cobrei nada pelo apoio que dava. Fazia porque era natural para mim, como professora. Transformar isso numa associação sem fins lucrativos foi o caminho lógico.

O que representa para si o lançamento deste livro após uma década?

É o fechamento de um ciclo e o início de outro. O livro é um reflexo de todo esse percurso: as dificuldades, as conquistas, as histórias das pessoas que ajudei e que me ajudaram. É uma forma de deixar registrada não só a minha história, mas a de muitos brasileiros que escolheram Portugal para reescrever a sua vida.

Uma mensagem final para quem está a considerar mudar-se para Portugal hoje?

Pesquise, planeje e tenha humildade para recomeçar. Portugal é um país acolhedor, mas exige adaptação. Não venha com expectativas irreais. Venha com vontade de integrar-se, respeitar as diferenças e contribuir. E saiba que não está sozinho — existe toda uma comunidade pronta para ajudar.

Assista à entrevista completa com Alexandra Gomide no programa Chá e Prosa, mediado pela apresentadora Gabriella Catharino. Uma conversa leve, honesta e inspiradora em que Alexandra detalha sua jornada de 10 anos em Portugal, os bastidores da criação do Olhar Brasileiro e as lições aprendidas ao longo desta década de acolhimento e integração. Disponível no YouTube: https://youtu.be/4p80jVB-2tA

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