Sete edições, dez mil pessoas e um pastel que virou símbolo: a festa junina que resiste no norte de Portugal
O ArraUai começou como um sonho pessoal e se transformou no maior evento junino da comunidade brasileira em Portugal, levando forró, acarajé e saudade para as ruas de Braga.
Por Viviane Oliveira Antonio | Braga, Portugal
As oito da noite, a fila do pastel já dobrava o corredor do Parque da Ponte. Quem chegava via a espera e ficava. Duas horas e meia de fila, um pastel na mão e o Brasil um pouco mais perto. Era a primeira edição do ArraUai, em Braga, e ninguém sabia ainda que aquela barraca improvisada viraria tradição.
Sete anos depois, o arrauai se consolida como o maior evento de cultura junina organizado pela diáspora brasileira em Portugal. A cada edição, cerca de dez mil pessoas passam pelo recinto ao longo de oito horas de festa. O número foi calculado pela organização com base na área quadrada do espaço e na movimentação registrada ao longo dos anos.
A ideia nasceu de uma necessidade que qualquer brasileiro emigrado conhece: como fazer festa junina sem canjica, sem forró, sem o cheiro do quentão no ar? A resposta encontrada pela fundadora do evento, mineira de origem, foi trazer tudo do Brasil, literalmente.
“Quando a gente abriu o ArraUai, a primeira coisa que eu falei é que queria fazer uma festa junina de verdade. Eu fazia arraial na universidade há seis, sete anos. Gosto. Nessa festa, ninguém se diverte mais do que eu.”
Fundadora do arrauai Alexandra Gomides, em reunião preparatória da 7a edição
De Minas Gerais para o norte de Portugal
Em Minas Gerais, a festa junina não é decoração de calendário. E parte da identidade regional, com repertório próprio de comidas, danças e ritmos. Trazer essa identidade para uma cidade do norte de Portugal não foi simples. No início, não havia comidas típicas disponível para vender nos mercados locais. O forró era desconhecido da maior parte do público português. O pastel, então tão comum no Brasil, simplesmente não existia em Portugal. “Como é que você faz uma festa junina sem Canjica?”, pergunta a organizadora, em tom que mistura humor com memória afetiva. A solução foi persistir, ano após ano, até que o público encontrasse o evento, e o evento encontrasse o público.

A lógica das barracas como modelo de comunidade
Uma das marcas do Arrauai é o sistema de organização das barracas. A proposta não é criar um mercado livre onde cada expositor compete pelo mesmo cliente. A organização distribui os produtos entre as barracas de forma a evitar sobreposições diretas: quem faz acarajé, faz só acarajé. Que tem queijo coalho divide o espaço em duas barracas para reduzir as filas, mas não acumula outros produtos no mesmo ponto.
Quando as filas do queijo coalho se tornaram um problema recorrente, a solução foi separar duas barracas para o queijo, uma terceira para os espertinhos. Quando o pastel começou a gerar reclamações com filas de duas horas e meia, a organização chegou a trabalhar com três barracas simultâneas e ainda trouxe estruturas do Porto para dar conta da demanda.
“A gente tenta trabalhar de modo que uma barraca não concorra com a outra. Tem que estar feliz no que está fazendo. A gente ama o que a gente faz e quer com a gente quem ama o que está fazendo.”
Organizadora do ArraUai, em reunião com os participantes da 7a edição

O episódio da canjica e o Brasil que não cabe numa só palavra
Numa das edições anteriores, a organização se deparou com uma situação que diz muito sobre o desafio de reunir brasileiros de todas as regiões em torno de um mesmo evento. Duas barracas vendiam o mesmo produto com nomes diferentes: o que uma chamava de mugunza, a outra chamava de canjica. Para a organizadora, mineira, canjica e sempre a bolinha branca. Para quem vem do Nordeste, canjica pode ser o mugunza.
Uma festa que cresce para além de Braga
Na sétima edição, o ArraUai ultrapassa as fronteiras da cidade. A organização está trazendo barracas de expositores de Vigo, na Galiza, para se reunir com público da diáspora que vive na região espanhola com o público de Portugal. A expansão e gradual e segue a mesma lógica das edições anteriores: crescer sem perder o formato que fez o evento funcionar.
O público que chega ao Parque da Ponte inclui famílias inteiras, com crianças que ficam do início ao fim da festa. Pessoas que viajam de outras cidades. Brasileiros que aproveitaram as férias no Brasil para comprar o vestido junino que vão usar no ArraUai. A festa se tornou, ao longo de sete anos, um ponto de encontro que não precisa de publicidade para acontecer. As pessoas simplesmente sabem que ela vai estar lá.


