A questão não é quanto você ganha, é quanto você gasta

A questão não é quanto você ganha, é quanto você gasta

Fórum encerra ciclo ensinando imigrantes a organizar finanças, evitar armadilhas de juros e planejar aposentadoria entre dois países

Março de 2026 | Braga, Portugal

“Quem ganha 10 mil reais gasta 12. Quem ganha mil, gasta 500. Quem é mais próspero?” A provocação da advogada e consultora financeira Cláudia Gontijo arrancou risos e silêncio reflexivo da plateia que lotou a sessão de encerramento do 3º Fórum “As Dores da Imigração”. Durante mais de duas horas, imigrantes brasileiros ouviram verdades desconfortáveis sobre dinheiro, aprenderam a fugir de armadilhas de juros e descobriram que a aposentadoria que deixaram no Brasil pode estar em risco, mas ainda há tempo de salvar.

O erro que todo mundo comete (abrir o ciclo).

“Vocês precisam saber quanto precisam para viver.” A Dra. Cláudia foi direto ao ponto. Se você precisa de 2 mil euros, seu ciclo está fechado em 2 mil. Ganhou 3 mil? Mil euro não é seu. É para investir, para pensar no futuro, para a previdência.

O problema, segundo ela, é que a maioria das pessoas abre o ciclo assim que ganha mais. Começam a gastar 3 mil quando deveriam manter o padrão de 2 mil. “Isso é a equipe do banco da presidência”, brincou, referindo-se ao hábito de aumentar gastos junto com a renda. “Aí você compra um carro melhor, uma roupa de marca, começa a comer fora todo dia. E no final do mês, não sobra nada.”

A solução? Fazer três listas. Primeira: tudo que você ganha. Segunda: todas as dívidas. Terceira: todas as despesas mensais. No final, você divide o resultado. Está positivo ou negativo? Se está positivo, ótimo. Liquide dívidas e pare de pagar juros. Se está negativo, pare e olhe o que pode melhorar. Tem tantas coisas que nós podemos economizar.

Obrigação, necessidade e desejo saiba a diferença

A Dra. Cláudia dividiu os gastos em três categorias. Obrigação: aluguel, empréstimo, contas que não tem jeito, tem de pagar. Necessidade: comida, combustível, roupa para vestir. Desejo: férias, entretenimento, roupa de marca.

“Você precisa de roupa para vestir. Isso é necessidade. Mas uma roupa de marca já é desejo.” E continuou: A gente pode, com muito pouco dinheiro, fazer tantas coisas incríveis em Portugal. Muitas vezes deixamos de aproveitar os simples da vida e gastamos fortunas em hotéis de luxo só para impressionar outras pessoas.

A consultora também alertou sobre a diferença de valores entre Brasil e Portugal. Um carro de 500 mil reais no Brasil custa o mesmo que um Ford Kuga aqui. A gente era explorada com tanto imposto e pagava o ócio. Aqui você pode ter qualidade de vida dentro do seu orçamento. Mas tem de planejar.

Crise é oportunidade (se você guardou dinheiro)

“Em tempos de prosperidade, você economiza e pensa em investimentos. Em tempos de crise, você aproveita as oportunidades.” A lógica da Dra. Cláudia é simples quando a economia vai bem, as pessoas compram imóveis caros. Quando vem a crise, muita gente precisa vender imóvel barato. Divórcio, dívidas, processos judiciais. Tem leilão aqui em Portugal. Você pode comprar um imóvel barato. Eu já tive clientes que compraram em leilão com financiamento aprovado pelo banco. Uma semana depois já estava tudo resolvido.

Ela contou o caso de um cliente que comprou um imóvel e em um ano ganhou 100 mil euros de valorização. “Com investimento tradicional, você ganha uma rentabilidade de 5% ao ano. Ele comprou bem, vendeu, pegou esse dinheiro e capitalizou.”

Mas alertou: Tem gente querendo comprar 50% dos meus clientes são estrangeiros. Muitos brasileiros que estão fora já estão comprando imóvel aqui para aposentadoria. Querem vir morar em Portugal e já estão se preparando. Mas tem de tomar cuidado porque o mercado está inflacionado.

Juros são risco financeiro liquide dívidas

“A taxa de juros é um risco. É como um rico financiado. Minha família não financia.” A Dra. Cláudia foi enfática: se você tem saldo positivo no final do mês, use para liquidar dívidas. Você reduz juros. Às vezes vale a pena consolidar dívidas. Você pega várias dívidas pequenas que pagam juros altos e transforma em uma única com juros mais baixos.

Ela também ensinou uma estratégia: “Às vezes você tem um prazo muito alongado. Você reduz o prazo, diminui os juros. Outras vezes, o prazo alongado está bom no seu orçamento e você pode investir mais. Tem de analisar caso a caso.”

O segredo não espere sobrar dinheiro

“Você não deve investir o dinheiro que sobra no mês. Mas valores específicos que você mesmo definiu.” Esta foi a mensagem mais importante da palestra. “O segredo é esse. Não é esperar sobrar. É você definir e já fazer parte do seu controle mensal esse recurso para investir.”

A regra ideal: 50% do que você ganha para gastos. Os outros 50% você divide entre poupança (para emergências e segurança) e investimento (dinheiro que você pode multiplicar ou até perder parte sem comprometer sua vida). “O problema é que muitas pessoas investem dinheiro que não podem perder. Depois gera frustração enorme.”

A história do pai que nunca se aposentou

A advogada Élida Bottari começou sua palestra de forma emocionante. Era sua primeira apresentação desde que perdeu o pai há pouco mais de 30 dias. “Ele faleceu com 70 anos e não conseguiu se aposentar”. Nós crescemos ouvindo meu pai projetar tudo para depois da aposentadoria. Quando eu me aposentar vou comprar uma chácara, quando eu me aposentar vou fazer não sei o quê. E esse ‘se aposentar’ parece uma coisa que nunca chega.”

O pai dela trabalhou na área rural desde criança. Mas não sabia que o trabalhador rural tem legislação especial no Brasil. Precisa de documentos específicos. “Ele não soube. Não existia na época o acesso à informação que temos hoje. Ele não conseguiu se aposentar como rural. Começou a trabalhar como urbano, mas já era tarde. Isso comprometeu toda a vida dele.”

A lição: “Aposentadoria é como um fruto que você quer comer. Você tem de plantar hoje para colher depois. E só vai ter condições de colher se você realizar pequenos atos agora.”

Você sabe qual é seu patrimônio previdenciário?

Quando você deixa o Brasil e vem para Portugal, precisa pensar no que já construiu em termos de previdência pública no Brasil. Qual é o patrimônio previdenciário que você já conquistou? Em que pé você está? Precisa continuar contribuindo? Já é suficiente? Ou só lá na frente vai se preocupar?

A Dra. Élida explicou que a UAI oferece aconselhamento gratuito. Vocês podem levar o CNIS (Cadastro Nacional de Informações Sociais), que é o extrato de contribuições do Brasil. Pega lá no Meu INSS, no aplicativo. Tem todo o seu histórico contributivo, as empresas onde contribuiu, quanto tempo, quais foram os valores.

Com esse documento, os advogados da UAI conseguem analisar a situação. Já consigo te dizer. Olha, você precisa voltar a contribuir. Ou tem muitas pendências aqui que nós precisamos corrigir. Às vezes a pessoa trabalhou em algum lugar e não consta porque a empresa não fazia a contribuição. Dá para corrigir. Mas precisa saber disso agora.

Previdência entre dois países um direito social e humano

Muita gente jovem me pergunta: mas vale a pena contribuir? Pode chegar a hora de me aposentar e não existir mais previdência social?” A resposta da Dra. Élida é sempre a mesma: “Essa é uma estrutura que é um direito social, um direito humano, que está na maioria das constituições dos países democráticos.”

E continuou: Não é só uma garantia interna do Estado. Existem acordos, convenções, instituições internacionais como a OIT (Organização Internacional do Trabalho) que criam padrões e estruturas de proteção social. O Estado pode estar fragilizado, mas existem mecanismos de cooperação internacional que vão trazer suporte para garantir esses direitos pelo maior tempo possível.

A advogada destacou ainda que no contexto migratório, a previdência social ganha relevância ainda maior. No Brasil, se você é empregado, é obrigação da empresa descontar. Você nem presta atenção. Mas quando você sai do país e começa em Portugal, precisa pensar no que já construiu lá e no que está construindo aqui. É importante planejar a aposentadoria entre dois países.

Ao final das duas palestras, foi aberto espaço para perguntas. As dúvidas eram muitas e específicas: como consolidar dívidas, como investir com pouco dinheiro, como regularizar tempo de contribuição no Brasil, como funciona a aposentadoria em Portugal. As duas especialistas ficaram à disposição, respondendo uma a uma.

O 3º Fórum “As Dores da Imigração” encerrou seu ciclo cumprindo a promessa de ser mais que um evento: uma ponte entre conhecimento e decisão consciente. Foram três sessões (psicológica, jurídica, financeira e previdenciária) que trouxeram informação prática para quem precisa estruturar vida em outro país.

Como disse a Dra. Élida: “Quanto mais nós damos conhecimento, mais nós recebemos. E é sempre bom ter esse apoio multidisciplinar que faz diferença na realidade de cada um.” A UAI segue firme na missão de apoiar, integrar e dar voz à comunidade imigrante em Portugal.

3º Fórum “As Dores da Imigração” — Sessão Financeira e Previdenciária | Organização: UAI — União, Apoio e Integração | Apoio: AIMA | março de 2026 | Braga, Portugal | Palestrantes: Dra. Cláudia Gontijo (finanças) e Dra. Élida Bottari (previdência)

Autora: Viviane Oliveira

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