Saúde Mental e Imigração

Saúde Mental e Imigração

Terceiro Fórum “As Dores da Imigração” promovido pela UAI reuniu especialistas, pesquisadoras e comunidade para debater os impactos psicológicos do processo migratório e apresentar dados inéditos sobre a percepção da mulher brasileira no município

4 de março de 2026 | 15h às 17h | Museu do Traje Dr. Gonçalo Sampaio, Braga

O compromisso institucional com a dimensão humana da imigração

A presidente da UAI, Alexandra Gomide, abriu a sessão com uma intervenção que delineou o propósito do encontro. Mais do que discutir políticas públicas ou questões jurídicas temas das sessões anteriores, tratava-se de mergulhar na subjetividade de quem migra. “Não podemos acolher sem conhecer. E conhecer, neste contexto, significa também compreender as dores silenciosas que acompanham o processo de adaptação“, afirmou.

A fala inicial estabeleceu o tom do que viria a seguir: uma abordagem que combinava rigor acadêmico, sensibilidade e escuta ativa. A proposta da UAI, segundo Alexandra, é justamente criar pontes entre o conhecimento produzido na universidade, a experiência das associações de apoio e as vivências cotidianas da comunidade imigrante.

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Mulheres brasileiras em braga entre o estereótipo e a resistência

A primeira apresentação da tarde coube a Viviane Oliveira, voluntária da UAI e jornalista investigativa. Os resultados parciais de sua pesquisa sobre a percepção da mulher brasileira em Braga expuseram uma realidade incômoda: o preconceito persiste, e ele é estruturante.

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Dados coletados junto a 57 mulheres revelam que 87,7% acreditam na existência de um estereótipo negativo sobre a mulher brasileira em Portugal. Destas, 56,1% classificam esse estereótipo como exclusivamente negativo. Mais alarmante ainda: 61,3% das entrevistadas afirmam já ter sofrido ou presenciado situações de preconceito diretamente relacionadas à sua nacionalidade e gênero.

As respostas abertas, contudo, revelam uma dualidade fascinante. Se por um lado emergem palavras como “inferior”, “vulgar”, “promíscua” e “interesseira” reflexo do estigma que teima em perdurar, por outro lado, termos como “guerreira”, “resiliente”, “forte” e” batalhadora” demonstram a potência com que essas mulheres se reinventam diariamente.

Viviane destacou ainda o perfil das respondentes: 75,4% possuem ensino superior, o que contraria o imaginário que associa a imigração feminina brasileira à baixa qualificação. Apesar disso, 24,6% encontram-se desempregadas e 43,9% são mães sendo que 29,8% destas criam os filhos sozinhas, sem rede de apoio.

O luto migratório e a exaustão de recomeçar

Na sequência, a conselheira da UAI e psicóloga Lívia Grizzi conduziu a palestra central da sessão. Com uma abordagem que equilibrava rigor técnico e humanidade, Lívia explicou conceitos fundamentais para a compreensão da experiência migratória, como o luto migratório o conjunto de perdas afetivas, sociais e culturais.

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“Ansiedade, solidão, exaustão física e mental não são fragilidades individuais. São respostas humanas legítimas a um processo complexo de reestruturação da vida”, sublinhou a psicóloga, desmistificando a ideia de que pedir ajuda psicológica seria sinal de fraqueza.

A palestra também problematizou o acesso da população imigrante aos cuidados de saúde mental em Portugal. Dados divulgados em fevereiro de 2025 pela Nova School of Business and Economics (Nova SBE) indicam que, embora os imigrantes apresentem menor probabilidade de reportar sintomas depressivos do que a população nativa fenômeno conhecido como “hipótese do imigrante saudável”, há uma deterioração progressiva do estado de saúde mental ao longo do tempo, associada às barreiras de acesso aos serviços e ao desgaste do processo de aculturação.

O cérebro do Imigrante e uma investigação em curso

Encerrando o ciclo de apresentações, Larissa Pinheiro, estagiária da UAI e aluna de Psicologia na Universidade do Minho, compartilhou os resultados preliminares de sua investigação “Bem-Estar Emocional e Funcionamento Cognitivo nos Imigrantes em Processo de Adaptação Sociocultural”.
O estudo, ainda em fase de coleta de dados, procura compreender de que forma variáveis como o tempo de residência em Portugal, o domínio da língua portuguesa e o acesso a redes de apoio social impactam o funcionamento cognitivo dos imigrantes. A apresentação reforçou a importância de uma abordagem interdisciplinar aos desafios da imigração, demonstrando como a psicologia, a sociologia e as ciências da comunicação podem dialogar na construção de conhecimento aplicado.

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O que as mulheres pedem apoio psicológico em primeiro lugar

Um dos momentos mais impactantes da tarde foi a apresentação dos dados relativos às ações consideradas mais importantes para apoiar a mulher imigrante. Questionadas sobre que tipo de iniciativa considerariam prioritário, as respondentes foram claras:

  • Apoio psicológico: 70,2% a medida mais desejada, e precisamente o tema da sessão;
  • Espaços de acolhimento: 59,6%;
  • Informação jurídica: 56,1%;
  • Formação profissional: 56,1%.

Os números falam por si sete em cada dez mulheres consideram o apoio à saúde mental a prioridade número um. O dado valida não apenas a escolha temática do fórum, mas também o trabalho que a UAI vem desenvolvendo ao longo de seus quase oito anos de existência.

Uma rosa para cada mulher e o simbolismo do acolhimento

Em sintonia com o mês de março, historicamente associado às lutas e conquistas das mulheres, a organização ofereceu uma rosa a todas as participantes presentes. O gesto, aparentemente simples, carregava simbolismo: num contexto em que a investigação apresentada evidenciava as dificuldades enfrentadas pelas mulheres brasileiras em processos de integração, a flor representava o reconhecimento, o respeito e a valorização de cada trajetória.

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O que os números não dizem e por que precisamos ouvir as entrelinhas

Há algo que os gráficos não capturam. Algo que escapa às porcentagens, aos desvios-padrão e às correlações estatísticas. Refiro-me à textura da experiência humana àquilo que, nos 59,6% de mulheres que apontaram dificuldades emocionais, corresponde a noites em claro, a crises de choro solitárias, à angústia de não ter com quem compartilhar o peso do dia.

Os números apresentados no Fórum “As Dores da Imigração” são, sem dúvida, reveladores. Saber que 70,2% das mulheres imigrantes em Braga consideram o apoio psicológico uma prioridade não é apenas um dado: é um grito. É a evidência de que, durante muito tempo, a política migratória se concentrou nos documentos, nas autorizações de residência, nos contratos de trabalho e esqueceu-se das pessoas.

Há uma ironia sutil nesta história. Os mesmos discursos que romantizam a coragem de quem emigra “são guerreiros”, “batalhadores”, “fortes” são os que, paradoxalmente, negam a essas pessoas o direito à vulnerabilidade. Porque ser guerreiro, na mitologia popular, significa não fraquejar. Não chorar. Não pedir ajuda.
Ora, os dados da Nova SBE, citados ao longo da sessão, desmontam essa fantasia. A “hipótese do imigrante saudável” a ideia de que quem emigra chega com uma robustez física e mental acima da média esconde uma realidade mais complexa: a deterioração progressiva desse estado ao longo do tempo. Em português claro: chega-se forte, mas o desgaste do processo de adaptação, somado à discriminação e à solidão, vai minando essa fortaleza.
E depois há o estereótipo. 87,7% das mulheres questionadas acreditam que ele existe. Mas o mais grave não é a crença é a confirmação. 61,3% já sentiram na pele o peso de serem julgadas não pelo que são, mas pelo que projetaram sobre elas. “Vulgar”, “promíscua”, “interesseira” as palavras doem, mesmo quando anônimas. E doem mais porque vêm de um país que, oficialmente, acolhe.
O mérito da UAI, neste terceiro fórum, foi precisamente este: nomear o que está silenciado. Trazer para o espaço público aquilo que, na intimidade dos consultórios psicológicos ou nos desabafos entre amigas, já se sabia. E mais: fazê-lo com rigor, com dados, com investigação sem perder a humanidade.

A sessão de perguntas, no final, revelou algo precioso. O público não queria apenas ouvir; queria participar. Queria saber como contribuir, como ajudar, como fazer parte da transformação. É esse o caminho: passar do diagnóstico à ação, do “o que sentimos ao que faremos juntos”.

A UAI completa, em maio de 2026, oito anos de existência. Oito anos acolhendo, integrando, apoiando. Oito anos construindo, tijolo por tijolo, uma comunidade mais consciente das complexidades que envolvem a imigração. Mas o trabalho está longe de terminar. Os números mostram: 70,2% de pedidos de apoio psicológico não deixam margem para dúvidas.

A quarta e última sessão do fórum, marcada para 11 de março, abordará a dimensão jurídica da imigração. Será, espera-se, mais um passo na direção certa: a de uma sociedade que não apenas acolhe, mas que se prepara para acolher. Que não apenas integra, mas que se transforma no processo.
Porque, no fundo, é disso que se trata. A imigração não é um fenômeno que acontece aos outros. É um espelho. O que vemos nele refletido medo, resistência, abertura, generosidade diz muito mais sobre nós do que sobre quem chega.

E se há coisa que os números da pesquisa “Brasileiras em Braga” nos ensinam, é que as mulheres que aqui chegam não pedem esmola. Pedem acolhimento. Não imploram por piedade. Pedem respeito. Não mendigam oportunidades. Querem construí-las com dignidade, com saúde mental, com apoio.

Cabe-nos, agora, ouvir.

3º Fórum “As Dores da Imigração” — Sessão Psicológica | Organização: UAI — União, Apoio e Integração | Apoio: AIMA — Agência para a Integração, Migrações e Asilo | 4 de março de 2026 | Museu do Traje Dr. Gonçalo Sampaio, Braga | Próxima sessão: 11 de março de 2026 (temática jurídica) |

Autoria: Viviane Oliveira

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