Referências

Referências

Autora: Viviane Oliveira

O restaurante está cheio como sempre à hora do almoço. Mesas ocupadas, conversas cruzadas, o som dos talheres contra a loiça, o cheiro a bacalhau e grelhados misturado com café acabado de passar. Num canto, junto à janela, dois amigos de longa data debruçam-se sobre pratos de arroz de pato e falam de tudo e de nada, como quem procura entender o mundo através de pequenas conversas que nunca chegam a conclusões definitivas.

— Já reparaste que nada é como era? — diz um deles, cortando um pedaço de carne. Quer dizer, não estou a falar só das coisas óbvias. Falo de tudo. Das pequenas certezas que tínhamos e que agora… desapareceram.

O outro ergue os olhos do prato, pensativo. Não responde logo. É uma daquelas conversas que não começam por acaso começam porque algo dentro incomoda, porque há uma inquietação que precisa de sair.

Duas mesas à frente, três jovens estudantes discutem entre livros espalhados e portáteis abertos. Procuram referências bibliográficas para um trabalho qualquer. Mas não é só isso que procuram — procuram autoridade, fontes credíveis, algo sólido onde possam ancorar as suas ideias. Um deles folheia um manual velho, sublinhado a lápis. Outro desiste e fecha o computador.

— Já nem sei em que é que hei de acreditar — murmura. — Hoje dizem uma coisa, amanhã desmentem. Onde está a verdade?

Mais atrás, encostadas ao balcão, duas mulheres de meia-idade conversam enquanto esperam a vez de pagar. Falam de receitas, de um chef que viram na televisão, de como já ninguém cozinha como antigamente. Uma delas lembra-se da avó, das tardes na cozinha, do cheiro a pão acabado de fazer. A outra suspira.

— A minha filha nem sabe fritar um ovo. Compra tudo feito. Diz que não tem tempo.
Mas eu acho que é outra coisa… acho que se perdeu alguma coisa pelo caminho.

Nos fundos do restaurante, duas funcionárias da limpeza recolhem pratos e limpam mesas com movimentos automáticos, treinados por anos de repetição. Enquanto trabalham, falam baixo entre elas. Uma delas tem os olhos cansados, mãos calejadas. Vem da Ucrânia. A outra é brasileira, mãe de três filhos.

— Às vezes penso que o mundo enlouqueceu — diz a ucraniana, enxugando as mãos no avental. — Lá na minha terra, havia regras. Sabíamos o que era certo e o que era errado. Aqui, tudo é relativo. Tudo é discutível. Como é que se educa uma criança assim?

A brasileira concorda com a cabeça. Conta que o filho mais velho, com quinze anos, já não quer ir à igreja. Diz que religião é coisa do passado, que não precisa de Deus para ser boa pessoa. Ela não sabe o que responder. Cresceu numa família onde se rezava antes das refeições, onde domingo era dia de missa. Agora sente-se perdida, sem mapa, sem bússola.

— Tiraram-nos as referências todas — continua a ucraniana. — A família, a igreja, o respeito pelos mais velhos. Disseram que era opressão. Mas e agora? Agora temos o quê?

Lá fora, na rua, o guarda-carros está encostado ao muro, a fumar um cigarro. É jovem, talvez trinta anos, mas tem o olhar de quem já viu demais. Ao lado dele, sentado no chão com as costas apoiadas na parede, um homem sem-abrigo estende a mão aos transeuntes. Poucos param. A maior parte desvia o olhar e acelera o passo.

— Como é que chegaste aqui? — pergunta o guarda-carros, oferecendo-lhe um cigarro.
O sem-abrigo aceita, acende o cigarro com mãos trémulas. Não é velho talvez quarenta e poucos, mas parece ter setenta. A rua envelhece depressa.

— Perdi as referências — responde, soltando o fumo devagar. — O pai foi-se embora quando eu tinha dez anos. A mãe morreu quando tinha quinze. Fui viver com um tio que bebia. Nunca tive ninguém que me dissesse ‘vai por aqui, não vás por ali’. Andei à deriva. Drogas, más companhias, prisão. Quando saí, já não tinha nada. Nem casa, nem família, nem amigos. E aqui estou.

O guarda-carros não sabe o que dizer. Sente um aperto no peito. Pensa no próprio pai, severo, mas presente. Na mãe, exigente, mas amorosa. Nas regras rígidas que tanto o irritavam na adolescência e que agora, adulto, percebe que eram uma forma de proteção. De orientação. De referência.

Dentro do restaurante, os dois amigos continuam a conversa. Falam das guerras que não param Ucrânia, Gaza, conflitos em África que ninguém noticia. Falam das crises climáticas, dos furacões cada vez mais violentos, dos incêndios florestais que consomem florestas inteiras. Falam da inflação, da habitação inacessível, dos jovens que não conseguem sair de casa dos pais. Falam da polarização política, do ódio nas redes sociais, da impossibilidade de diálogo.

— Sabes qual é o problema? — diz um deles, pousando o garfo. — É que já não sabemos em que acreditar. Não há instituições sólidas. Não há verdades absolutas. Tudo é fluido, tudo é relativo, tudo muda da noite para o dia. O que ontem era certo, hoje é errado. O que ontem era errado, hoje é celebrado. Como é que se constrói uma vida em cima de areia movediça?

O outro concorda, mas hesita. Há uma parte dele que percebe a libertação que veio com a quebra das velhas estruturas — a opressão que muitas vezes se escondia por trás da tradição, o autoritarismo mascarado de moral, a hipocrisia das instituições que pregavam uma coisa e praticavam outra. Mas também percebe o vazio que ficou no lugar. A desorientação. A falta de chão.

— Talvez precisássemos de novas referências sugere. Não voltar às antigas, porque muitas eram tóxicas. Mas encontrar outras. Construir outras. Algo que nos dê direção sem nos aprisionar. Algo que nos una sem nos homogeneizar.

Os estudantes à mesa ao lado fecham os livros. Não encontraram as referências que procuravam, mas talvez tenham percebido algo mais importante: que as referências não são apenas bibliográficas, não são apenas autores consagrados ou teorias aceites. As referências são também as pessoas, os lugares, as experiências, os valores que escolhemos carregar connosco. E que, nestes tempos líquidos e incertos, cada um tem de construir as suas próprias.

As mulheres junto ao balcão pagam a conta e saem. As funcionárias da limpeza terminam o turno e vão para casa, onde os esperam filhos com outras perguntas, outros desafios, outras dúvidas. O guarda-carros continua lá fora, vigiando os automóveis, pensando no sem-abrigo que fumou um cigarro ao seu lado e que agora desapareceu na esquina. Os dois amigos pedem café e ficam mais um pouco, porque algumas conversas não têm fim, e porque procurar respostas juntos é sempre melhor do que procurar sozinho.

Lá fora, o mundo continua. As guerras continuam. As crises continuam. As mudanças continuam. Mas dentro daquele pequeno restaurante, por breves momentos, pessoas diferentes partilharam algo fundamental: a perceção de que estão todos, cada um à sua maneira, à procura da mesma coisa.

Referências.

Aquelas pequenas âncoras que nos impedem de flutuar à deriva num mar revolto. Aqueles faróis distantes que, mesmo quando a neblina é densa, nos lembram que existe uma costa, um porto, um lugar onde é possível aportar.

E talvez o maior desafio da nossa época não seja voltar às referências do passado, nem negar a necessidade de referências. Talvez o desafio seja precisamente este: aprender a construir novas referências, sólidas, mas flexíveis, firmes, mas abertas, capazes de nos orientar sem nos aprisionar, capazes de nos dar direção sem nos tirar a liberdade.

Porque, no fundo, todos precisamos de algo em que acreditar. Todos precisamos de algum chão sob os pés. Todos precisamos de alguma certeza, ainda que pequena, ainda que imperfeita, que nos permita acordar de manhã e dizer: está bem, eu sei o que fazer. Eu sei para onde ir. Eu sei quem sou.

E enquanto não as encontramos, enquanto não as construímos, continuamos aqui. À deriva. Cada um no seu canto, no seu trabalho, na sua mesa de restaurante. Procurando, questionando, duvidando. À espera de um sinal. De uma direção. De uma referência que nos faça sentido novamente.

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