Mulheres Brasileiras na Fronteira da Ciência: Tatiana Coelho de Sampaio e a Esperança Renovada
Entre os laboratórios da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Tatiana Coelho de Sampaio dedicou quase três décadas a uma proteína aparentemente discreta: a laminina, presente na matriz extracelular que sustenta nossos tecidos. O que começou como uma investigação fundamental, sem promessas imediatas, revelou-se algo extraordinário: a polilaminina, uma estrutura polimerizada derivada dessa proteína (extraída de placentas doadas), capaz de atuar como um “andaime biológico” que guia neurônios danificados a se reconectarem.
Descoberta “por acaso”, como a própria Tatiana descreve com humildade científica, a molécula já mostrou resultados promissores em testes experimentais. Pacientes com lesões medulares graves – paraplégicos e tetraplégicos – recuperaram movimentos voluntários, incluindo ficar em pé com apoio e, em casos notáveis, dar passos assistidos. Em fevereiro de 2026, a Anvisa autorizou a fase 1 de ensaios clínicos, em parceria com o laboratório Cristália e instituições como o Hospital das Clínicas da USP. Seis pacientes já apresentam avanços significativos, desafiando o que a medicina considerava irreversível.
Tatiana, bióloga de 59 anos, equilibra rigor acadêmico com empatia profunda. “É sobre devolver qualidade de vida”, diz ela, lembrando que o tratamento – dose única intraespinhal, idealmente aplicada nas primeiras horas após a lesão, seguida de fisioterapia intensa – não é cura milagrosa, mas um avanço cauteloso e ético. Sua trajetória, marcada por mais de 40 publicações internacionais e duas patentes, reflete a persistência característica de tantas cientistas brasileiras: trabalhar em silêncio, com recursos limitados, movida pela curiosidade e pelo desejo de ajudar.
Essa história transcende fronteiras. Mulheres como Tatiana representam o que o Brasil oferece ao mundo: talento dedicado, criatividade resiliente e compromisso humano. Em Portugal, onde a comunidade brasileira se integra há gerações, profissionais das ciências da saúde e da inovação encontram terreno fértil para colaborar. Imagine neurocientistas brasileiras contribuindo em centros como o Instituto de Medicina Molecular em Lisboa, unindo expertise transatlântica em projetos que beneficiam ambos os povos. Essa troca sutil fortalece laços culturais, enriquece o conhecimento compartilhado e reforça a lusofonia como espaço de progresso mútuo.
Celebrar Tatiana é reconhecer o valor das contribuições brasileiras – não como algo excepcional, mas como parte natural de uma convivência enriquecedora. Em um mundo interconectado, o talento que cruza o Atlântico constrói pontes duradouras, onde cada passo recuperado simboliza não só superação individual, mas o potencial coletivo de duas nações unidas pela língua e pela história.

