A Aldeia de um Só Habitante
Localizada a cerca de 1.200 metros de altitude, na freguesia de Valdepoldros, concelho de Monção (região do Alto Minho, próximo a Arcos de Valdevez e Braga), a pequena povoação conhecida como Val de Poldros — ou popularmente “Aldeia dos Hobbits” — destaca-se pelas suas características construções tradicionais: as cardenhas, casas térreas de granito com telhados baixos, projetadas para reter o calor nos invernos rigorosos da montanha. Abandonada durante décadas, a aldeia voltou a ganhar vida graças à presença permanente de Fernando Gonçalves, o único residente fixo desde 2004. Para suprir a solidão e atrair visitantes, ele transformou uma das casas num restaurante simples, que serve pratos regionais e recebe encomendas, especialmente nos fins de semana e no período de verão. O local também preserva a tradição da Romaria de Santo António, realizada em 13 de junho, uma das celebrações mais autênticas do Alto Minho, com procissão, cantorias e partilha de pão e vinho. A seguir, uma entrevista com Fernando Gonçalves sobre o funcionamento do espaço e a vida na aldeia isolada.
Fernando, como é que funciona o restaurante. Tem horários de abertura?
Eu abro quando vem gente. Não tenho horário fixo. Abro de manhã, abro ao meio-dia, abro à tarde… depende. Se vier alguém às 10 da manhã, abro às 10. Se vier às 12, abro ao meio-dia. Se vier mais tarde, abro mais tarde. Estou aqui sozinho, por isso não tenho horário certo. Abro quando aparece alguém.
A especialidade do restaurante é comida típica da região?
Sim, comida caseira, à moda antiga. O que as pessoas pedem, eu faço. Tenho sempre uns pratos prontos ou cozinho na hora. É comida simples, de aldeia, da nossa terra. Boa e farta.
Que pratos são servidos habitualmente?
Principalmente carnes da região: costeleta de novilho, costeleta de vitela, cordeiro e cabrito — este último quase sempre disponível. Cordeiro e cabrito também podem ser encomendados.
O restaurante aceita encomendas?
Sim, principalmente por telefone. Há internet, mas o sinal é fraco e muitas vezes é preciso ir até à janela para falar.
Como é o movimento de clientes?
Nos períodos de férias há mais gente, sobretudo imigrantes que regressam à região. Durante o ano, o movimento concentra-se nos fins de semana, especialmente sábado e domingo. À noite, algumas pessoas fazem encomendas para jantar.
Quem são os principais visitantes?
A maioria vem de fora. A curiosidade pela aldeia isolada e pela história de um único habitante atrai bastante gente.
Como é a rotina? Fica muito tempo sozinho?
Durante a semana, sim, fico mais sozinho. No ano inteiro, pode haver três ou quatro dias sem ninguém aparecer. Mas não me sinto isolado. Tenho carro e posso sair quando quero; a distância para as localidades mais próximas é de cerca de 30 a 40 km. Visitantes de várias partes do mundo passam por aqui com frequência.
O silêncio da montanha foi difícil de adaptar no início?
Sim, ao princípio incomodava. Quem viveu em cidades está habituado ao ruído constante. Com o tempo, o restaurante trouxe mais movimento e o silêncio passou a ser mais tranquilo. Hoje já se ouvem os pássaros e aproveita-se a paz quando não há trabalho.
A Romaria de Santo António continua a acontecer aqui?
Sim, no dia 13 de junho. Há procissão, cantorias, concertinas e, no final, partilha de pão e vinho. É uma festa simples e genuína.
Senhor Fernando, muito obrigado pela disponibilidade e pela conversa.
Quando quiserem voltar, há sempre espaço. Geograficamente, o lugar é privilegiado: de um lado Arcos de Valdevez, onde nasce o Rio Vez; do outro, Melgaço.
A entrevista completa, com imagens da aldeia, das cardenhas e do restaurante, está disponível no canal do YouTube do Olhar Brasileiro. Acesse o vídeo aqui: Aldeia de Um Homem Só

