Raízes e asas: atravessamentos da experiência migratória
Desde que o mundo é mundo, o ser humano migra.
Desde os primórdios, os deslocamentos foram motivados pela busca de melhores condições de vida e adaptação. Da sobrevivência à busca de sentido, fomos evoluindo também em relação aos desejos que impulsionam o movimento migratório.
Mas algo permaneceu em comum ao longo da história: a busca por pertencimento. Pertencer à terra, aos grupos, às culturas, às histórias familiares e à própria existência.
Ao longo dos séculos, povos atravessaram diferentes territórios, criando raízes e deixando sementes que floresceram em novas gerações. Famílias migraram juntas; outras vezes, dispersaram-se pelos caminhos do mundo.
E, a partir desses encontros entre diferentes culturas, nasceram descendentes marcados por raízes múltiplas. Subjetividades construídas entre línguas, memórias, afetos e heranças culturais diversas.
Hoje, vemos muitas dessas pessoas vivendo movimentos de retorno às terras de origem de seus antepassados, honrando o desbravamento de seus ascendentes. Brasileiros com origens portuguesas, italianas ou espanholas, por exemplo, reencontram partes da própria história através da imigração. Em alguns casos, chegam com uma dupla nacionalidade; em outros, atravessam longos processos na tentativa de conquistá-la.
Mas, para além dos documentos, existe também algo simbólico nesse percurso: uma tentativa de reconexão com as próprias raízes.
Neste mês, em Braga, a Braga Romana também nos convida a refletir sobre isso. Os Bracari e os vestígios da presença romana retomam simbolicamente os espaços da cidade, revelando como as culturas sempre foram construídas através de encontros, deslocamentos e transformações.
Ainda hoje, é possível perceber essas marcas nas ruínas, nos monumentos, nas tradições e na própria identidade cultural da cidade. A ancestralidade permanece viva; não apenas como memória histórica, mas como algo que continua atravessando gerações.
Nessa perspectiva, talvez possamos pensar a migração não apenas como um fenômeno contemporâneo em crescimento, mas como um movimento primordial, humano e permanente na história da humanidade.
E talvez a imigração também nos ensine algo importante: que podemos ter raízes e asas ao mesmo tempo. As raízes aparecem nas memórias, na língua, nos afetos e nas histórias que carregamos conosco. As asas surgem na coragem de atravessar fronteiras, criar novos vínculos e permitir que novos sentidos de casa possam nascer.
Porque, no fundo, atravessar essa vida talvez seja sobre reconhecer que o coração humano pode habitar mais de um território ao mesmo tempo.
Lívia Grizzi
Psicóloga Clínica Intercultural
OPP: 30056
Conselheira da Associação UAI

