É primavera: vamos falar sobre pertencimento?

É primavera: vamos falar sobre pertencimento?

Entre estações e travessias: a construção de um lugar possível no novo país.

A experiência de migrar atravessa estações: algumas mais áridas, outras mais férteis. Para muitos brasileiros em Portugal, o inverno pode ser vivido como um tempo de desafios e recolhimento: dias curtos, menos luz, menos vida nas ruas. Um período que, por vezes, acentua a sensação de não pertencimento, como se ainda não fosse possível chamar esse novo lugar de casa.

Mas, pouco a pouco, a primavera chega.

E ela não chega apenas no calendário — ela se anuncia no corpo, no humor, nas possibilidades. Depois de um inverno que não era casa, a primavera surge como um respiro. Para quem vem de um país solar como o Brasil, a luz tem um efeito quase emocional: ela aquece não só a pele, mas também a sensação de familiaridade com o mundo ao redor.

A natureza acompanha esse movimento. As árvores florescem, os dias se alongam, os animais entram em ciclos de reprodução. Há uma energia de recriação no ar, como se tudo convidasse ao recomeço. E talvez esse seja também um tempo interno: um momento de se permitir criar novas versões de si mesmo dentro da experiência migratória.

A primavera pode ser, então, uma estação fértil para o pertencimento.

Não como algo que simplesmente acontece, mas como um processo que pode ser cultivado. Pertencer, na imigração, é também um gesto ativo: envolve sair, experimentar, se expor, construir vínculos. Em cidades como Braga, esse movimento encontra terreno propício. Eventos culturais como a Páscoa e a Braga Romana transformam o espaço público em um convite ao encontro — entre culturas, histórias e pessoas.

Participar desses momentos, circular pela cidade, reconhecer rostos, criar pequenas rotinas: tudo isso vai, pouco a pouco, ampliando a sensação de familiaridade. E familiaridade é uma das raízes do pertencimento.

Talvez não se trate de substituir uma casa por outra, mas de permitir que novos sentidos de casa possam nascer.

Afinal, assim como a primavera não apaga o inverno, mas o transforma, a experiência migratória também pode deixar de ser apenas travessia para se tornar, gradualmente, morada.

Lívia Grizzi

Psicóloga Clínica Intercultural – OPP: 30056 | Conselheira da Associação UAI

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